segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Redenção - parte 1
Josué era do tipo calado, de fazer antes de falar, e talvez por isso foi designado como primeiro soldado, aquele que vigia a entrada da boca na favela.
De poucas palavras e ações destemidas, Josué seguia a cartilha do Comando, pronto para atirar à menor ameaça de invasão pelo inimigo.
Inclue-se em inimigo qualquer pessoa ou veículo que ultrapassasse a linha delimitada pela posição de Josué, que servia de sentinela de um muro imaginário, porém mais temido e intransponível que muitas barreiras concretas.
Ao lado dele trabalhava Foguinho, o fogueteiro veterano incumbido de dar o alerta ao menor sinal de anomalia na rotina vigiada da favela.
Quando naquela tarde de maio a perua Kombi com vidros filmados subiu em disparada a rua principal, seguiu-se uma saraivada de projéteis saídos da AR-15 de Josué, acertando em cheio a lataria da Kombi.
Foguinho, estirado no chão depois de um farto almoço no boteco do Seu Olimpio, só lançar ao ar o primeiro foguetório muito depois de Josué se aproximar da carcaça da Kombi e abrir sua porta para render prováveis sobreviventes.
E havia sim um rapaz que se safara, pois se encontrava atrás dos sacos de mantimentos, que sem querer formaram uma trincheiro para protegê-lo do profissionalismo de Josué.
A mesma sorte não tiveram os dois ocupantes da frente, reduzidos a peneiras humanas ensangüentadas.
Mais tarde os dois souberam do equívoco: atiraram em um veículo de ONG que trazia donativos arrecadados em jogo beneficente entre os veteranos de Vasco e Cruzeiro.
Josué pensou que Roberto Dinamite não perdoaria tamanho vacilo.
Internamente, o rapaz se corroía de culpa por um ato que a seu ver não poderia ser remediado.
E embora não recebera uma só advertência do comando, em seu íntimo o juiz interno o castigava com as chicotadas do remorso.
Foi demais para Josué, que acima de tudo era um bom rapaz temente a Deus.
Josué usou de seus conhecimentos como combatente voluntário das FARC para fugir e se esconder dos guardas do comando.
Depois de duas semanas entocado em casas de conhecidos, achando que arriscava a vida de quem lhe oferecia abrigo, Josué decidiu fugir para um mosteiro, para onde iria na adolescência se não tivesse virado aviãozinho do tráfico.
O padre lhe acolheu com toda a compreensão, emprestando a Josué seus ouvidos por quanto tempo fosse necessário.
E não foram poucas as horas que o rapaz passou debruçado no confessionário, desejando purgar o mínimo resquício de sua recém adquirida aura de assassino.
Tantos terços girados não deram resultado, culminando com a fuga de Josué do mosteiro.
Josué precisava de sua redenção e ela não viria da boca do padre.
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