Contei, pronto.
domingo, 15 de janeiro de 2012
O ex quase fisiculturista
É comum que em nossa juventude - se bem que esse sentimento possa perdurar por toda a vida - alimentemos nossa insegurança nos projetando em quem possui atributos que não nos são próprios.
Gastamos nosso tempo sofrendo com essa falta ou então partimos para tentar preencher o vazio, naquela fase em que tudo parece possível e a falta de talento é atribuída à preguiça.
Por isso quando Cybar anunciou que iria malhar, foi motivo de comentários tanto encorajadores quando de escárnio.
Os realmente amigos, e isso se resumia a Tiago e seus irmãos, o incentivaram, pois viam nele uma espécie de balão de ensaio para uma futura iniciativa similar.
Já os garotos maiores da escola, adeptos do bulying moral, além de zombarem de Cybar passaram a persegui-lo nos vestiários e a boicotarem a vez nos aparelhos da academia para desanimá-lo de seu intento.
Mas Cybar era filho de tenazes imigrantes eslavos, daqueles que aguentam calados mas não se entregam, pelo contrário, se fortalecem na adversidade.
Por isso passou a frequentar a academia de noite, quando todo já tinham saído, e praticamente tinha todos os equipamentos para si até a hora do porteiro fechar a sala de musculação.
Com o tempo Cybar foi adquirindo musculatura, tanto física quanto mental.
Voltou a malhar de dia e já não era mais perturbado, pois pela carcaça já se incluía entre os marombados de plantão.
A prova maior de sua metamorfose veio com a conquista de uma das garotas mais cobiçadas da escola, Suzane.
Suzane era uma garota de corpo escultural, típica animadora de torcida, disputada entre os rapazes mais populares.
Enfim, estar ao seu lado era a credencial que faltava a Cybar para conquistar o respeito de todos.
Cybar só não contava com o acaso.
A chegada de Lucy, uma paranaense que viera estudar como bolsista em seu colégio, fez bambear as fortes batatas da perna de Cybar.
Lucy era um gênio, o que a aproximava mais do estudiosos como Tiago e de como Cybar um dia tinha sido.
Quando percebeu que Lucy e Tiago mais próximos do que simples colegas de classe, Cybar não se conteve.
Largou Suzane e sua ascendência entre os mais populares da escola pela sua paixão repentina por Lucy.
As montanhas de músculos nem se abalaram, pois sua amizade por Cybar não passava de uma tolerância à companhia constante de Suzane.
O mesmo não se podia dizer de Tiago, que, embora afastado devido às novas preferências de Cybar, ainda conservava os laços de amizade, agora renovados pela admiração que sentia pelas proezas do amigo.
Tiago desmoronou.
Fora traído pelo amigo que mais prezava.
Passou a nutrir um desejo visceral de vingança.
Mas antes que praticasse qualquer ato impensando, o destino lhe tomou as rédeas da mão.
Lucy foi chamada por Harvard e deixaria todos sem apego, inclusive Cybar.
Num rompante de paixão, o rapaz até se propôs mudar para os states, iniciativa da qual foi prontamente destituído, para o desespero de alguém que se supunha indispensável.
Após a partida de Lucy, Cybar não voltou para Suzane e nem ela para ele.
Também os garotos populares já não mais o respeitavam e ele voltou a ser tratado à margem como antes da aquisição dos músculos.
Ao menos Tiago o perdoou, já que não tinha mais ninguém para compartilhar seu mundo de livros, teorias, coleções, as nerdices de sempre.
Mas Cybar estava feliz.
Ao menos não precisava provar para si nem para ninguém que era capaz de viver a vida que escolhesse.
Nem que fosse sua antiga vida, em meio à filosofia, a literatura, a matemática, ao livre pensar, essas coisas caídas como a atual musculatura de seus bíceps.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
O Henrikipedia
Henrique era um rapaz bonitão, bem-nascido, do tipo que toda sogra pediu para genro.
Mas tinha um defeito invisível para quem não o conhecia, porém grotesco para quem convivia com o gajo: era uma enciclopédia ambulante.
E como toda enciclopédia, Henrique tinha o grave defeito de saber de tudo, e de deixar isso muito claro.
Dividir uma mesa de bar com ele era um martírio: a cerveja descia fácil, mas o papo de Henrique, muito pelo contrário, era difícil de engolir.
Sobre qualquer assunto, ele desfilava seu conhecimento "almanaque abril" por horas, e tinha a mania de sempre contrariar a maioria.
Por esse defeito, congênito mas que alguns ex-amigos confundiram como de caráter, Henrique colecionava antipatias e ex-namoradas.
Aliás, na questão amorosa, inúmeros tinham sido os insucessos, desde casos onde não passara do primeiro encontro, até namoros que só duraram enquanto a companheira o admirava.
E não estamos falando daquela admiração comum a todas as paixões, mas sim de mulheres praticamente analfabetas que tinha Henrique como um gênio, até descobrirem que ele não passava de um cospe-cultura inútil.
A mãe de Henrique já tinha até se conformado com o destino solitário do rebento, pois ao longo dos anos conseguiu enxergar seu defeito por trás do véu rosado do olhar de mãe.
Mas eis que Henrique, num desses blind dates pretensiosos marcados pela internet, topa com uma garota que o enfeitiça antes mesmo que pudesse se apresentar.
A beleza de Lídia - era esse seu nome - fez pela primeira vez Henrique emudecer.
Apertos de mãos dados, os dois se sentaram sem tirar os olhos uns dos outros, e ficaram à espera de quem tomaria a iniciativa.
E foi ela quem o fez, gesticulando na linguagem dos surdos-mudos algo que Henrique interpretou, atônito, como um "oi, tudo bem?".
O que poderia ter incomodado Henrique, a revelação da condição de Lídia, na verdade o deixaria em êxtase.
Sua verborragia encontrara abrigo nos doces ouvidos de Lídia, pois ela, logo Henrique percebeu, tinha extrema habilidade na leitura de lábios.
A comunhão cósmica que redundou no casal só poderia terminar em casamento.
Uma união abençoada por todos, desde os poucos fiéis amigos até os desafetos que acabaram o perdoando e comparecerem ao evento.
Afinal de contas, se antes Henrique falava por dois, agora falando pelo casal a conta estava mais equilibrada.
Fora que nos dias de hoje, não é todo mundo que dispensa um boca-livre.
Mesmo que a boca-livre seja a do chato do Henrique.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Amor de ouvido
Rogério ouvira durante toda sua vida que os homens são mais visuais e as mulheres, mais auditivas.
Uma verdade quase absoluta que ele nunca se atreveu a contestar.
Até que ele conheceu 80's girl.
Esse era o codinome de uma desconhecida colega de trabalho na rede do iTunes da empresas onde ambos trabalhavam.
Rogério, que não era muito afeito a trabalhar ouvindo música, um dia resolveu vasculhar a biblioteca para compor a trilha musical de sua pista de dança mental.
Na empresa, uma multinacional de design, Rogério dividia um dos muitos mesões que abrigavam figurinhas esquisitas de todas as espécies: caucasianos, negros, orientais, heteros, homos, bi, conservadores, revolucionários, fashionistas, caretas, vegetarianos, macrobióticos, hippies, yuppies.
Eram muitos, e todos faziam questão de exibir seus gostos musicais na intranet, de modo que acabavam interagindo mais pela rede do que pessoalmente.
Foi numa garimpada de referências que Rogério encontro 80's girl.
Foi paixão ao primeiro hit do Smiths.
E não eram só as referências musicais que batiam.
Também a ordem das músicas pela cronologia dos álbuns.
Os setlists preparados para uma festinha improvisada.
O amor pelas bandas de pop obscuro, que tiveram um ou dois hits lançados.
Mas tudo isso restrito aos anos 80.
Nem mais nem menos, qualquer referência a outra década musical ficava peremptoriamente à parte da coleção.
Tudo exatamente do jeito idealizado por Rogério de como deve ser uma seleção musical.
Por isso 80's girl passou a ser companhia obrigatória dos memorandos, petições, contratos, ações, qualquer coisa que Rogério digitasse em seu computador.
Mas apesar dessa identificacão irrestrita, Rogério nunca quis saber a identidade da 80's girl.
Ao contrário, temia se decepcionar com a mulher, imaginando alguém completamente fora de seu ideal de musa inspiradora.
Por isso, toda vez que 80's girl ficava offline, apesar de decepção momentânea, ele procurava desviar os olhos da porta de saída, evitando assim identificar seu ouvido gêmeo.
A coisa azedou quando 80's girl ficou cinco dias sem entrar na rede.
Rogério temeu pelo pior, pelo sumiço daquela que já era uma confidente de adolescência, pois dividia com ela as músicas que embalaram os casais imberbes dessa época.
Lá pelo sétimo, oitavo dia, os colegas começaram a estranhar um Rogério cabisbaixo, distante do rapaz troncudo embora tímido, que arrancava suspiros insuspeitos de mais da metade do mulherio da empresa.
E não é que Rogério, correndo até o departamento de RH, decidiu enfim se revelar a identidade de 80's girl?
Perguntou ao pessoal sobre todas as pessoas que haviam deixado a empresa nesses últimos dias.
E obteve como resposta a negativa: nenhuma tinha sido demitida.
Isso desorientou ao mesmo tempo que aliviou Rogério, mas ele só foi se acalmar 100% depois de verificar que 80's girl estava onlinezinha da silva em sua tela.
Aquele amor platônico, ou melhor, eletrônico, ainda renderia muitas tardes de felicidade a Rogério.
80's girl podia ser gorda, espinhuda, careca, bigoduda, estrábica, o que fosse.
Rogério não dava a mínima.
Aquela mulher era música para os seus ouvidos.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
O endoscopeuta
Luiz Caramba era um dos enfermeiros que velava pacientes sedados numa clínica de endoscopia.
Sua função era acompanhá-los até o momento em que despertavam e eram liberados para voltar para casa.
Poderia ser um trabalho tedioso, não tivesse Luiz uma mania geralmente associada a loucos, a de falar sozinho.
Pois essa mania acabaria lhe rendendo a descoberta de um talento inato: o de conversar abertamente com pacientes sedados, como numa sessão de terapia.
Pacientes que nunca tinham visto Luiz mais gordo, acabavam tratando-no como um confidente íntimo, um melhor amigo instantâneo e espontâneo.
As macas em que jaziam serviam como divãs, e Luiz não se rogava em se intrometer na vida alheia, receitando soluções para os mais diversos problemas pessoais.
Luiz, que até então era um resignado servidor público, agora se comprazia com sua nova utilidade.
E ele sabia que era útil, pois alguns pacientes voltavam para a clínica, e de quebra faziam mais uma sessão de endoscoterapia com Luiz.
Sim, não só ele tinha uma nova profissão como inaugurava uma nova área, a endoscoterapia.
E tudo caminharia muito bem, se não fosse a intromissão de uma de suas sessões pelo seu colega de clínica, nomeado Glauco.
Glauco, a princípio atônito com aquele ritual de "falar com os semi-mortos", aos poucos percebeu utilidades inimaginadas no fenômeno.
Ele tramava descobrir segredos de cofre, senhas de banco, tudo que pudesse usar para enriquecimento ilícito.
Primeiro filmou uma das sessões de Luiz e o com o video, ameaçou entregá-lo à direção sob a acusação de invasão de privacidade.
Logo fez de Luiz cúmplice de sua tramóia, com a qual Glauco em pouco tempo enriqueceu.
Era-lhe muito fácil furtar os pacientes, pois sabia de detalhes como senhas de alarme, nomes de cachorro, horários do dia onde residências ficavam vazias.
A roubalheira continuou de vento em popa, até que Luiz teve sua chance de abandonar o esquema.
Misturou sedativo à cervejinha de Glauco e fê-lo deitar na maca e se confessar como aos outros pacientes.
Com o video gravado de sua confissão, acabou denunciando Glauco e a ele também.
Mas conseguiu sua absolvição pela iniciativa de desmontar o sistema corrupto.
Luiz acabou expulso da clínica, mas foi também de livre vontade sua saída.
Agora, cursa Psicologia na PUC e faz pós-graduação em Ciências Esotéricas.
Sabe-se lá de onde vem seu talento, se do mero exercício da escuta ou de suas afinidades com o além.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Redenção - parte 1
Josué era do tipo calado, de fazer antes de falar, e talvez por isso foi designado como primeiro soldado, aquele que vigia a entrada da boca na favela.
De poucas palavras e ações destemidas, Josué seguia a cartilha do Comando, pronto para atirar à menor ameaça de invasão pelo inimigo.
Inclue-se em inimigo qualquer pessoa ou veículo que ultrapassasse a linha delimitada pela posição de Josué, que servia de sentinela de um muro imaginário, porém mais temido e intransponível que muitas barreiras concretas.
Ao lado dele trabalhava Foguinho, o fogueteiro veterano incumbido de dar o alerta ao menor sinal de anomalia na rotina vigiada da favela.
Quando naquela tarde de maio a perua Kombi com vidros filmados subiu em disparada a rua principal, seguiu-se uma saraivada de projéteis saídos da AR-15 de Josué, acertando em cheio a lataria da Kombi.
Foguinho, estirado no chão depois de um farto almoço no boteco do Seu Olimpio, só lançar ao ar o primeiro foguetório muito depois de Josué se aproximar da carcaça da Kombi e abrir sua porta para render prováveis sobreviventes.
E havia sim um rapaz que se safara, pois se encontrava atrás dos sacos de mantimentos, que sem querer formaram uma trincheiro para protegê-lo do profissionalismo de Josué.
A mesma sorte não tiveram os dois ocupantes da frente, reduzidos a peneiras humanas ensangüentadas.
Mais tarde os dois souberam do equívoco: atiraram em um veículo de ONG que trazia donativos arrecadados em jogo beneficente entre os veteranos de Vasco e Cruzeiro.
Josué pensou que Roberto Dinamite não perdoaria tamanho vacilo.
Internamente, o rapaz se corroía de culpa por um ato que a seu ver não poderia ser remediado.
E embora não recebera uma só advertência do comando, em seu íntimo o juiz interno o castigava com as chicotadas do remorso.
Foi demais para Josué, que acima de tudo era um bom rapaz temente a Deus.
Josué usou de seus conhecimentos como combatente voluntário das FARC para fugir e se esconder dos guardas do comando.
Depois de duas semanas entocado em casas de conhecidos, achando que arriscava a vida de quem lhe oferecia abrigo, Josué decidiu fugir para um mosteiro, para onde iria na adolescência se não tivesse virado aviãozinho do tráfico.
O padre lhe acolheu com toda a compreensão, emprestando a Josué seus ouvidos por quanto tempo fosse necessário.
E não foram poucas as horas que o rapaz passou debruçado no confessionário, desejando purgar o mínimo resquício de sua recém adquirida aura de assassino.
Tantos terços girados não deram resultado, culminando com a fuga de Josué do mosteiro.
Josué precisava de sua redenção e ela não viria da boca do padre.
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Figurinha carimbada
Quando o idoso de cabeça branca proferiu a fatídica pergunta, ele hesitou.
Por um instante sentiu um frio nascer na espinha e se espalhar por todos os ossos do corpo.
Afinal, aquela mulher ao lado ainda era uma estranha.
Alguém com quem tinha dividido um mojito num bar e, um instante depois, acordado ao seu lado.
Sabia que os efeitos etílicos eram perversos para avaliações de parceiros de noite e aquela loira dormente ao seu lado não seria exceção.
Mas bastou uma virada de lado e um murmúrio sonâmbulo para ele mudar de idéia.
Jean retribuiu quele sorriso involuntário de canto de boca, como um código entre verdadeiros pares.
Aquela não era uma completa estranha.
Mas que ninguém se precipite achando que Jean, em seu pragmatismo de macho do interior, julgaria ser caso de almas gêmeas.
Seria capaz de esbofetear quem sequer insinuasse uma viadagem dessas.
Mas Ana não lhe era estranha.
Mesmo aquele rosto lavado, de pálpebras descerradas tal qual persianas de madeira, não era menos familiar que o de sua mãe ou irmã.
Ana causava um desconforto confortável em Jean, que ao mesmo tempo intrigava e acalmava.
Foi esse sentimento que o fez tomar uma decisão que à maioria poderia parecer precipitada.
Por isso a sua momentânea hesitação.
Quer dizer, hesitação para os outros, porque para Jean foi como aquele filme que passa na cabeça na iminência da morte.
E de alguma forma aquilo era a morte de um estilo de vida, do qual nunca tivera a mínima reclamação.
O filme passou tão rápido que poderia provocar um curto-circuito em seus neurônios.
Teve frames da infância, da adolescência de galã, da imaturidade de sua fase corporativa e finalmente, sua afirmação como artista plástico consagrado.
Passagens do primeiro beijo, sua primeira namorada, com suas duas ex-mulheres e o nascimento do três filhos.
E finalmente, Ana.
Foi aí que Jean percebeu algo estranho no quadro a quadro de sua vida.
Mais atento às cenas, ele percebeu aparições de Ana no segundo plano em quase todas as passagens importantes de sua vida.
No seu primeiro beijo, ela era a bilheteira do cinema.
Na compra de seu primeiro carro, vendedora da concessionária.
Em sua formatura, organizadora da festa.
Em seu primeiro casamento, a câmera do video-lembrança.
No nascimento do primogênito, a enfermeira.
Em sua primeira vernissage, uma curiosa.
Aquele onipresença retrospectiva encheu Jean de confiança, fazendo-o despertar de seu estado alfa provocado por um formigamento que ia dos joelhos ao calcanhares.
E prontamente ele respondeu "SIMMMM!!!" ao padre, com uma energia e veemência que arrancou gargalhadas da platéia.
Jean enfim encontrara a mulher de sua vida.
Para alívio dela, que se cansara de perseguí-lo por quase 30 anos.
Por um instante sentiu um frio nascer na espinha e se espalhar por todos os ossos do corpo.
Afinal, aquela mulher ao lado ainda era uma estranha.
Alguém com quem tinha dividido um mojito num bar e, um instante depois, acordado ao seu lado.
Sabia que os efeitos etílicos eram perversos para avaliações de parceiros de noite e aquela loira dormente ao seu lado não seria exceção.
Mas bastou uma virada de lado e um murmúrio sonâmbulo para ele mudar de idéia.
Jean retribuiu quele sorriso involuntário de canto de boca, como um código entre verdadeiros pares.
Aquela não era uma completa estranha.
Mas que ninguém se precipite achando que Jean, em seu pragmatismo de macho do interior, julgaria ser caso de almas gêmeas.
Seria capaz de esbofetear quem sequer insinuasse uma viadagem dessas.
Mas Ana não lhe era estranha.
Mesmo aquele rosto lavado, de pálpebras descerradas tal qual persianas de madeira, não era menos familiar que o de sua mãe ou irmã.
Ana causava um desconforto confortável em Jean, que ao mesmo tempo intrigava e acalmava.
Foi esse sentimento que o fez tomar uma decisão que à maioria poderia parecer precipitada.
Por isso a sua momentânea hesitação.
Quer dizer, hesitação para os outros, porque para Jean foi como aquele filme que passa na cabeça na iminência da morte.
E de alguma forma aquilo era a morte de um estilo de vida, do qual nunca tivera a mínima reclamação.
O filme passou tão rápido que poderia provocar um curto-circuito em seus neurônios.
Teve frames da infância, da adolescência de galã, da imaturidade de sua fase corporativa e finalmente, sua afirmação como artista plástico consagrado.
Passagens do primeiro beijo, sua primeira namorada, com suas duas ex-mulheres e o nascimento do três filhos.
E finalmente, Ana.
Foi aí que Jean percebeu algo estranho no quadro a quadro de sua vida.
Mais atento às cenas, ele percebeu aparições de Ana no segundo plano em quase todas as passagens importantes de sua vida.
No seu primeiro beijo, ela era a bilheteira do cinema.
Na compra de seu primeiro carro, vendedora da concessionária.
Em sua formatura, organizadora da festa.
Em seu primeiro casamento, a câmera do video-lembrança.
No nascimento do primogênito, a enfermeira.
Em sua primeira vernissage, uma curiosa.
Aquele onipresença retrospectiva encheu Jean de confiança, fazendo-o despertar de seu estado alfa provocado por um formigamento que ia dos joelhos ao calcanhares.
E prontamente ele respondeu "SIMMMM!!!" ao padre, com uma energia e veemência que arrancou gargalhadas da platéia.
Jean enfim encontrara a mulher de sua vida.
Para alívio dela, que se cansara de perseguí-lo por quase 30 anos.
terça-feira, 29 de novembro de 2011
O compositor de ringtones
Com apenas 2 anos, Wolfgang já tocara os primeiros acordes do "bife".
Ou pelo menos foi assim que sua mãe, Sonia, fãzoca de música clássica (ou crássica, como ela costumava chamar) e meio surda, interpretou o lampejo de talento precoce de seu primogênito.
Já seu pai, Wander, torneiro mecânico e excelente batucador de caixa de fósforos, não estava presente ao "milagre".
Por isso, com apenas 50% de constatação, não foi surpresa que a genialidade de Wolfgang não tivesse desabrochado até a idade de 37 anos - o que fez Dona Sonia suspeitar de um dom tardio.
Bem, mas o fato é que Wolfgang começou a ganhar a vida dentro do meio musical sim, e como grande compositor.
Mas de ringtones.
Ringuitônis? Que p. é essa?,saiu brandindo o velho Wander pela casa, quando do primeiro projeto de Wolfgang aprovado na Samsung.
Como assim, não sabe o que é um ringtone, Wander?, respondeu Dona Sonia.
Bem, ele não conhecia o termo, mas como todo mundo com mais de 40 anos no bairro chamava, era aquele musiquinha que o celular toca.
E quando entendeu que era um meio de vida lucrativo, Wander ficou satisfeito em saber que seu pimpolho estava longe das aspirações artísticas planejadas por Dona Sonia.
Esta, na frente dos outros se mostrava orgulhosa dos feitos de seu rebento, embora por dentro se sentisse apenas resignada, esperançosa de presenciar futuras manisfestações artísticas do filho que ecoassem suas premonições.
O fato é que Wolfgang, embora não admitisse, também esperava mais de si mesmo.
Não que não se sentisse seguro e orgulhoso do contracheque gordo que caía sua conta a cada ringtone inspirado saído de seu sampler.
Mas todo o repertório musical transmitido por sua mãe, somado aos fascículos de música clássica da coleção folha, acabou por criar uma expectativa sobre si mesmo.
Por isso Wolfgang acabou por abandonar a Samsung sem aviso prévio - provocando a ira de coreanos perplexos.
Colocou seu teclado debaixo do braço e decidiu por se manter temporariamente de acordes remunerados em portas de metrô.
Mas o que era provisório acabou por duras meses, anos.
E nesse tempo todo, Wolfgang nunca mais cruzou com seus pais, que usavam o fusca velho até para comprar pão na esquina.
Mas certo dia, numa passagem pelo corredor do metrô, o dono de uma bem sucedida gravadora de clássicos foi pego pelo ouvido por notas escolhidas a dedo.
Foi paixão ao primeiro arpejo.
Wolfgang foi contratado como solista para uma série de gravações de peças clássicas.
E tornou-se solicitadíssimo em apresentações de orquestra.
Tudo isso sem que seus pais jamais soubessem, sob o pseudônimo de Joseph Mobile.
Ou pelo menos foi assim que sua mãe, Sonia, fãzoca de música clássica (ou crássica, como ela costumava chamar) e meio surda, interpretou o lampejo de talento precoce de seu primogênito.
Já seu pai, Wander, torneiro mecânico e excelente batucador de caixa de fósforos, não estava presente ao "milagre".
Por isso, com apenas 50% de constatação, não foi surpresa que a genialidade de Wolfgang não tivesse desabrochado até a idade de 37 anos - o que fez Dona Sonia suspeitar de um dom tardio.
Bem, mas o fato é que Wolfgang começou a ganhar a vida dentro do meio musical sim, e como grande compositor.
Mas de ringtones.
Ringuitônis? Que p. é essa?,saiu brandindo o velho Wander pela casa, quando do primeiro projeto de Wolfgang aprovado na Samsung.
Como assim, não sabe o que é um ringtone, Wander?, respondeu Dona Sonia.
Bem, ele não conhecia o termo, mas como todo mundo com mais de 40 anos no bairro chamava, era aquele musiquinha que o celular toca.
E quando entendeu que era um meio de vida lucrativo, Wander ficou satisfeito em saber que seu pimpolho estava longe das aspirações artísticas planejadas por Dona Sonia.
Esta, na frente dos outros se mostrava orgulhosa dos feitos de seu rebento, embora por dentro se sentisse apenas resignada, esperançosa de presenciar futuras manisfestações artísticas do filho que ecoassem suas premonições.
O fato é que Wolfgang, embora não admitisse, também esperava mais de si mesmo.
Não que não se sentisse seguro e orgulhoso do contracheque gordo que caía sua conta a cada ringtone inspirado saído de seu sampler.
Mas todo o repertório musical transmitido por sua mãe, somado aos fascículos de música clássica da coleção folha, acabou por criar uma expectativa sobre si mesmo.
Por isso Wolfgang acabou por abandonar a Samsung sem aviso prévio - provocando a ira de coreanos perplexos.
Colocou seu teclado debaixo do braço e decidiu por se manter temporariamente de acordes remunerados em portas de metrô.
Mas o que era provisório acabou por duras meses, anos.
E nesse tempo todo, Wolfgang nunca mais cruzou com seus pais, que usavam o fusca velho até para comprar pão na esquina.
Mas certo dia, numa passagem pelo corredor do metrô, o dono de uma bem sucedida gravadora de clássicos foi pego pelo ouvido por notas escolhidas a dedo.
Foi paixão ao primeiro arpejo.
Wolfgang foi contratado como solista para uma série de gravações de peças clássicas.
E tornou-se solicitadíssimo em apresentações de orquestra.
Tudo isso sem que seus pais jamais soubessem, sob o pseudônimo de Joseph Mobile.
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