sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O Henrikipedia

Henrique era um rapaz bonitão, bem-nascido, do tipo que toda sogra pediu para genro. Mas tinha um defeito invisível para quem não o conhecia, porém grotesco para quem convivia com o gajo: era uma enciclopédia ambulante. E como toda enciclopédia, Henrique tinha o grave defeito de saber de tudo, e de deixar isso muito claro. Dividir uma mesa de bar com ele era um martírio: a cerveja descia fácil, mas o papo de Henrique, muito pelo contrário, era difícil de engolir. Sobre qualquer assunto, ele desfilava seu conhecimento "almanaque abril" por horas, e tinha a mania de sempre contrariar a maioria. Por esse defeito, congênito mas que alguns ex-amigos confundiram como de caráter, Henrique colecionava antipatias e ex-namoradas. Aliás, na questão amorosa, inúmeros tinham sido os insucessos, desde casos onde não passara do primeiro encontro, até namoros que só duraram enquanto a companheira o admirava. E não estamos falando daquela admiração comum a todas as paixões, mas sim de mulheres praticamente analfabetas que tinha Henrique como um gênio, até descobrirem que ele não passava de um cospe-cultura inútil. A mãe de Henrique já tinha até se conformado com o destino solitário do rebento, pois ao longo dos anos conseguiu enxergar seu defeito por trás do véu rosado do olhar de mãe. Mas eis que Henrique, num desses blind dates pretensiosos marcados pela internet, topa com uma garota que o enfeitiça antes mesmo que pudesse se apresentar. A beleza de Lídia - era esse seu nome - fez pela primeira vez Henrique emudecer. Apertos de mãos dados, os dois se sentaram sem tirar os olhos uns dos outros, e ficaram à espera de quem tomaria a iniciativa. E foi ela quem o fez, gesticulando na linguagem dos surdos-mudos algo que Henrique interpretou, atônito, como um "oi, tudo bem?". O que poderia ter incomodado Henrique, a revelação da condição de Lídia, na verdade o deixaria em êxtase. Sua verborragia encontrara abrigo nos doces ouvidos de Lídia, pois ela, logo Henrique percebeu, tinha extrema habilidade na leitura de lábios. A comunhão cósmica que redundou no casal só poderia terminar em casamento. Uma união abençoada por todos, desde os poucos fiéis amigos até os desafetos que acabaram o perdoando e comparecerem ao evento. Afinal de contas, se antes Henrique falava por dois, agora falando pelo casal a conta estava mais equilibrada. Fora que nos dias de hoje, não é todo mundo que dispensa um boca-livre. Mesmo que a boca-livre seja a do chato do Henrique.

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