domingo, 15 de janeiro de 2012

O ex quase fisiculturista

É comum que em nossa juventude - se bem que esse sentimento possa perdurar por toda a vida - alimentemos nossa insegurança nos projetando em quem possui atributos que não nos são próprios. Gastamos nosso tempo sofrendo com essa falta ou então partimos para tentar preencher o vazio, naquela fase em que tudo parece possível e a falta de talento é atribuída à preguiça. Por isso quando Cybar anunciou que iria malhar, foi motivo de comentários tanto encorajadores quando de escárnio. Os realmente amigos, e isso se resumia a Tiago e seus irmãos, o incentivaram, pois viam nele uma espécie de balão de ensaio para uma futura iniciativa similar. Já os garotos maiores da escola, adeptos do bulying moral, além de zombarem de Cybar passaram a persegui-lo nos vestiários e a boicotarem a vez nos aparelhos da academia para desanimá-lo de seu intento. Mas Cybar era filho de tenazes imigrantes eslavos, daqueles que aguentam calados mas não se entregam, pelo contrário, se fortalecem na adversidade. Por isso passou a frequentar a academia de noite, quando todo já tinham saído, e praticamente tinha todos os equipamentos para si até a hora do porteiro fechar a sala de musculação. Com o tempo Cybar foi adquirindo musculatura, tanto física quanto mental. Voltou a malhar de dia e já não era mais perturbado, pois pela carcaça já se incluía entre os marombados de plantão. A prova maior de sua metamorfose veio com a conquista de uma das garotas mais cobiçadas da escola, Suzane. Suzane era uma garota de corpo escultural, típica animadora de torcida, disputada entre os rapazes mais populares. Enfim, estar ao seu lado era a credencial que faltava a Cybar para conquistar o respeito de todos. Cybar só não contava com o acaso. A chegada de Lucy, uma paranaense que viera estudar como bolsista em seu colégio, fez bambear as fortes batatas da perna de Cybar. Lucy era um gênio, o que a aproximava mais do estudiosos como Tiago e de como Cybar um dia tinha sido. Quando percebeu que Lucy e Tiago mais próximos do que simples colegas de classe, Cybar não se conteve. Largou Suzane e sua ascendência entre os mais populares da escola pela sua paixão repentina por Lucy. As montanhas de músculos nem se abalaram, pois sua amizade por Cybar não passava de uma tolerância à companhia constante de Suzane. O mesmo não se podia dizer de Tiago, que, embora afastado devido às novas preferências de Cybar, ainda conservava os laços de amizade, agora renovados pela admiração que sentia pelas proezas do amigo. Tiago desmoronou. Fora traído pelo amigo que mais prezava. Passou a nutrir um desejo visceral de vingança. Mas antes que praticasse qualquer ato impensando, o destino lhe tomou as rédeas da mão. Lucy foi chamada por Harvard e deixaria todos sem apego, inclusive Cybar. Num rompante de paixão, o rapaz até se propôs mudar para os states, iniciativa da qual foi prontamente destituído, para o desespero de alguém que se supunha indispensável. Após a partida de Lucy, Cybar não voltou para Suzane e nem ela para ele. Também os garotos populares já não mais o respeitavam e ele voltou a ser tratado à margem como antes da aquisição dos músculos. Ao menos Tiago o perdoou, já que não tinha mais ninguém para compartilhar seu mundo de livros, teorias, coleções, as nerdices de sempre. Mas Cybar estava feliz. Ao menos não precisava provar para si nem para ninguém que era capaz de viver a vida que escolhesse. Nem que fosse sua antiga vida, em meio à filosofia, a literatura, a matemática, ao livre pensar, essas coisas caídas como a atual musculatura de seus bíceps.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O Henrikipedia

Henrique era um rapaz bonitão, bem-nascido, do tipo que toda sogra pediu para genro. Mas tinha um defeito invisível para quem não o conhecia, porém grotesco para quem convivia com o gajo: era uma enciclopédia ambulante. E como toda enciclopédia, Henrique tinha o grave defeito de saber de tudo, e de deixar isso muito claro. Dividir uma mesa de bar com ele era um martírio: a cerveja descia fácil, mas o papo de Henrique, muito pelo contrário, era difícil de engolir. Sobre qualquer assunto, ele desfilava seu conhecimento "almanaque abril" por horas, e tinha a mania de sempre contrariar a maioria. Por esse defeito, congênito mas que alguns ex-amigos confundiram como de caráter, Henrique colecionava antipatias e ex-namoradas. Aliás, na questão amorosa, inúmeros tinham sido os insucessos, desde casos onde não passara do primeiro encontro, até namoros que só duraram enquanto a companheira o admirava. E não estamos falando daquela admiração comum a todas as paixões, mas sim de mulheres praticamente analfabetas que tinha Henrique como um gênio, até descobrirem que ele não passava de um cospe-cultura inútil. A mãe de Henrique já tinha até se conformado com o destino solitário do rebento, pois ao longo dos anos conseguiu enxergar seu defeito por trás do véu rosado do olhar de mãe. Mas eis que Henrique, num desses blind dates pretensiosos marcados pela internet, topa com uma garota que o enfeitiça antes mesmo que pudesse se apresentar. A beleza de Lídia - era esse seu nome - fez pela primeira vez Henrique emudecer. Apertos de mãos dados, os dois se sentaram sem tirar os olhos uns dos outros, e ficaram à espera de quem tomaria a iniciativa. E foi ela quem o fez, gesticulando na linguagem dos surdos-mudos algo que Henrique interpretou, atônito, como um "oi, tudo bem?". O que poderia ter incomodado Henrique, a revelação da condição de Lídia, na verdade o deixaria em êxtase. Sua verborragia encontrara abrigo nos doces ouvidos de Lídia, pois ela, logo Henrique percebeu, tinha extrema habilidade na leitura de lábios. A comunhão cósmica que redundou no casal só poderia terminar em casamento. Uma união abençoada por todos, desde os poucos fiéis amigos até os desafetos que acabaram o perdoando e comparecerem ao evento. Afinal de contas, se antes Henrique falava por dois, agora falando pelo casal a conta estava mais equilibrada. Fora que nos dias de hoje, não é todo mundo que dispensa um boca-livre. Mesmo que a boca-livre seja a do chato do Henrique.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Amor de ouvido

Rogério ouvira durante toda sua vida que os homens são mais visuais e as mulheres, mais auditivas. Uma verdade quase absoluta que ele nunca se atreveu a contestar. Até que ele conheceu 80's girl. Esse era o codinome de uma desconhecida colega de trabalho na rede do iTunes da empresas onde ambos trabalhavam. Rogério, que não era muito afeito a trabalhar ouvindo música, um dia resolveu vasculhar a biblioteca para compor a trilha musical de sua pista de dança mental. Na empresa, uma multinacional de design, Rogério dividia um dos muitos mesões que abrigavam figurinhas esquisitas de todas as espécies: caucasianos, negros, orientais, heteros, homos, bi, conservadores, revolucionários, fashionistas, caretas, vegetarianos, macrobióticos, hippies, yuppies. Eram muitos, e todos faziam questão de exibir seus gostos musicais na intranet, de modo que acabavam interagindo mais pela rede do que pessoalmente. Foi numa garimpada de referências que Rogério encontro 80's girl. Foi paixão ao primeiro hit do Smiths. E não eram só as referências musicais que batiam. Também a ordem das músicas pela cronologia dos álbuns. Os setlists preparados para uma festinha improvisada. O amor pelas bandas de pop obscuro, que tiveram um ou dois hits lançados. Mas tudo isso restrito aos anos 80. Nem mais nem menos, qualquer referência a outra década musical ficava peremptoriamente à parte da coleção. Tudo exatamente do jeito idealizado por Rogério de como deve ser uma seleção musical. Por isso 80's girl passou a ser companhia obrigatória dos memorandos, petições, contratos, ações, qualquer coisa que Rogério digitasse em seu computador. Mas apesar dessa identificacão irrestrita, Rogério nunca quis saber a identidade da 80's girl. Ao contrário, temia se decepcionar com a mulher, imaginando alguém completamente fora de seu ideal de musa inspiradora. Por isso, toda vez que 80's girl ficava offline, apesar de decepção momentânea, ele procurava desviar os olhos da porta de saída, evitando assim identificar seu ouvido gêmeo. A coisa azedou quando 80's girl ficou cinco dias sem entrar na rede. Rogério temeu pelo pior, pelo sumiço daquela que já era uma confidente de adolescência, pois dividia com ela as músicas que embalaram os casais imberbes dessa época. Lá pelo sétimo, oitavo dia, os colegas começaram a estranhar um Rogério cabisbaixo, distante do rapaz troncudo embora tímido, que arrancava suspiros insuspeitos de mais da metade do mulherio da empresa. E não é que Rogério, correndo até o departamento de RH, decidiu enfim se revelar a identidade de 80's girl? Perguntou ao pessoal sobre todas as pessoas que haviam deixado a empresa nesses últimos dias. E obteve como resposta a negativa: nenhuma tinha sido demitida. Isso desorientou ao mesmo tempo que aliviou Rogério, mas ele só foi se acalmar 100% depois de verificar que 80's girl estava onlinezinha da silva em sua tela. Aquele amor platônico, ou melhor, eletrônico, ainda renderia muitas tardes de felicidade a Rogério. 80's girl podia ser gorda, espinhuda, careca, bigoduda, estrábica, o que fosse. Rogério não dava a mínima. Aquela mulher era música para os seus ouvidos.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O endoscopeuta

Luiz Caramba era um dos enfermeiros que velava pacientes sedados numa clínica de endoscopia. Sua função era acompanhá-los até o momento em que despertavam e eram liberados para voltar para casa. Poderia ser um trabalho tedioso, não tivesse Luiz uma mania geralmente associada a loucos, a de falar sozinho. Pois essa mania acabaria lhe rendendo a descoberta de um talento inato: o de conversar abertamente com pacientes sedados, como numa sessão de terapia. Pacientes que nunca tinham visto Luiz mais gordo, acabavam tratando-no como um confidente íntimo, um melhor amigo instantâneo e espontâneo. As macas em que jaziam serviam como divãs, e Luiz não se rogava em se intrometer na vida alheia, receitando soluções para os mais diversos problemas pessoais. Luiz, que até então era um resignado servidor público, agora se comprazia com sua nova utilidade. E ele sabia que era útil, pois alguns pacientes voltavam para a clínica, e de quebra faziam mais uma sessão de endoscoterapia com Luiz. Sim, não só ele tinha uma nova profissão como inaugurava uma nova área, a endoscoterapia. E tudo caminharia muito bem, se não fosse a intromissão de uma de suas sessões pelo seu colega de clínica, nomeado Glauco. Glauco, a princípio atônito com aquele ritual de "falar com os semi-mortos", aos poucos percebeu utilidades inimaginadas no fenômeno. Ele tramava descobrir segredos de cofre, senhas de banco, tudo que pudesse usar para enriquecimento ilícito. Primeiro filmou uma das sessões de Luiz e o com o video, ameaçou entregá-lo à direção sob a acusação de invasão de privacidade. Logo fez de Luiz cúmplice de sua tramóia, com a qual Glauco em pouco tempo enriqueceu. Era-lhe muito fácil furtar os pacientes, pois sabia de detalhes como senhas de alarme, nomes de cachorro, horários do dia onde residências ficavam vazias. A roubalheira continuou de vento em popa, até que Luiz teve sua chance de abandonar o esquema. Misturou sedativo à cervejinha de Glauco e fê-lo deitar na maca e se confessar como aos outros pacientes. Com o video gravado de sua confissão, acabou denunciando Glauco e a ele também. Mas conseguiu sua absolvição pela iniciativa de desmontar o sistema corrupto. Luiz acabou expulso da clínica, mas foi também de livre vontade sua saída. Agora, cursa Psicologia na PUC e faz pós-graduação em Ciências Esotéricas. Sabe-se lá de onde vem seu talento, se do mero exercício da escuta ou de suas afinidades com o além.