Um dia o homem recebeu a visita de um anjo, que lhe contou de canto o que nenhum outro ser humano jamais soube ou saberia: o dia de sua morte.
Ele, que até então acreditava em livre arbítrio e em sua "missão pessoal" como diria Paulo Coelho, caiu em profunda depressão ao saber de sua breve e prematura morte, que lhe dava a expectativa de vida de apenas mais 3 anos.
Fora um duro golpe para o homem, que enfim conseguira superar o trauma de uma infância paupérrima e uma carreira cambaleante para enfim alcançar uma vida confortável e a admiração de seus pares como advogado criminalista.
Logo sua mulher e filhos notaram seu abatimento repentino e puseram em dúvida sua sanidade, fazendo-o passar por uma bateria de exames com médicos e psiquiatras, suspeitando de uma possível depressão.
Mas logo após um curto período sorumbático, subitamento o homem inverteu seu quadro psicológico, tornando-se alguém ainda mais solar do que costumava ser em sua fase de sucesso.
Seria uma grande noticia para sua família, se o homem tivesse retomado sua vida, mas não foi o que aconteceu.
Pelo contrário, o homem abandonou carreira, amigos e recentes hábitos burgueses pelo desapego total, passando a doar suas posses aos necessitados, e a cultivar amizades com pedintes de rua.
Esse comportamento não nublou sua mente a ponto de esquecer de seus dias contados, mas ao menos consolou-o por se sentir enfim livre das cobranças de sucesso que o acompanharam em boa parte de sua vida.
Agora o homem só pensava em aproveitar cada segundo a seu novo estilo, em convívio com descamisados e outros tipos dos chamados à margem da sociedade.
Obviamente sua família tentou interná-lo, mas quando isso acontecia o homem se refugiava em buracos providenciados pelos seus novos amigos de rua.
Numa dessas investidas de uma equipe de resgaste de um manicômio, o homem milagrosamente foi salvo por um pedinte que o ocultou em um bueiro.
Ali o homem reconheceu no pedinte o mesmo anjo que anunciara sua morte, e se lembrou que isso aconteceria em poucos dias.
Foi quando o anjo lhe comunicou que sua condenação era equivocada, pois sua ficha havia sido trocada pelo bagunçada burocracia das hordas celestes.
Uma sensação de júbilo tomou conta do homem, que na mesma hora se ajoelhou em agradecimento, como se o erro da burocracia dos céus na verdade tivesse sido uma benção.
Assim, nos dias que se seguiram, o homem viveu momentos de intenso regozijo com seu destino.
Mas ao contrário do que se poderia esperar, não retomou sua antiga vida na direção de seu escritório de advogacia nem tampouco seus hábitos prazerosos de novo rico que era.
Continuou apartado de seus familiares e amigos da bonança, preferindo a companhia de suas recentes amizades de rua.
Pois mais do que nunca ele sabia valorizar cada dia de sua limitada vida e não desejava gastar nem mesmo um segundo com o que não lhe dizia mais respeito.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
A freira dada
Antes que alguém acuse, esta história se assume um completo clichê.
Religiosas pervertidas habitam o imaginário popular há muito tempo e estão aí as piadas chulas que não nos deixam mentir.
O que nem por isso joga a história da irmã Marta na vala - ou cama - comum.
Ao contrário, a irmã Marta merece o respeito que o hábito que veste sugere, e ainda mais pelos motivos que a fazem se livrar dele entre quatro paredes.
Irmã Marta nunca se sentiu verdadeiramente altruísta somente levando a palavra de Deus aos necessitados.
Acreditava que sua verdadeira missão era exorcizar o pecado dos cordeiros desgarrados e que para isso deveria abrir mão de seu voto de castidade por uma causa, a seu ver, nobre.
Decidiu que levaria almas perdidas à cama até o completo esgotamento de suas forças e desejo, para daí então convertê-los à santa causa.
O que para qualquer um pareceria um método absurdamente contraditório, para irmã Marta era o único meio de salvar homens pervertidos.
Foi assim que ela acumulou uma extensa lista de "clientes", que em sua cabeceira deixavam o "dízimo".
Era assim que ela chamava o pagamento que depois era doado secretamente ao convento, em nome de uma tal Madame Gertrudes de Albuquerque, fictícia condessa da região e filantrópica de marca maior.
A popularidade de irmã Marta nas funções do meretrício era tão grande, que logo o fisco desconfiou das vultosas doações da Madame Albuquerque.
Não deu outra: irmã Marta foi descoberta e excomungada.
Apesar de humilhada publicamente, irmã Marta resolveu continuar suas atividades no bordel, reafirmando sua crença de estar ajudando os servos do Senhor.
Para deixar claro sua intenção, ela deixou de cobrar o "dízimo", arrecadando apenas o necessário para sobreviver.
Vez por outra, recebia clientes que solicitavam a ela vestir o hábito para realizar suas fantasias.
Inclusive, pasmen, alguns respeitáveis senhores frequentadores da missa dominical.
Mas sobre isso irmã Marta não fala nem de pé junto.
Afinal a cama onde recebia seus clientes, sob seu ponto de vista, era seu próprio confessionário.
Religiosas pervertidas habitam o imaginário popular há muito tempo e estão aí as piadas chulas que não nos deixam mentir.
O que nem por isso joga a história da irmã Marta na vala - ou cama - comum.
Ao contrário, a irmã Marta merece o respeito que o hábito que veste sugere, e ainda mais pelos motivos que a fazem se livrar dele entre quatro paredes.
Irmã Marta nunca se sentiu verdadeiramente altruísta somente levando a palavra de Deus aos necessitados.
Acreditava que sua verdadeira missão era exorcizar o pecado dos cordeiros desgarrados e que para isso deveria abrir mão de seu voto de castidade por uma causa, a seu ver, nobre.
Decidiu que levaria almas perdidas à cama até o completo esgotamento de suas forças e desejo, para daí então convertê-los à santa causa.
O que para qualquer um pareceria um método absurdamente contraditório, para irmã Marta era o único meio de salvar homens pervertidos.
Foi assim que ela acumulou uma extensa lista de "clientes", que em sua cabeceira deixavam o "dízimo".
Era assim que ela chamava o pagamento que depois era doado secretamente ao convento, em nome de uma tal Madame Gertrudes de Albuquerque, fictícia condessa da região e filantrópica de marca maior.
A popularidade de irmã Marta nas funções do meretrício era tão grande, que logo o fisco desconfiou das vultosas doações da Madame Albuquerque.
Não deu outra: irmã Marta foi descoberta e excomungada.
Apesar de humilhada publicamente, irmã Marta resolveu continuar suas atividades no bordel, reafirmando sua crença de estar ajudando os servos do Senhor.
Para deixar claro sua intenção, ela deixou de cobrar o "dízimo", arrecadando apenas o necessário para sobreviver.
Vez por outra, recebia clientes que solicitavam a ela vestir o hábito para realizar suas fantasias.
Inclusive, pasmen, alguns respeitáveis senhores frequentadores da missa dominical.
Mas sobre isso irmã Marta não fala nem de pé junto.
Afinal a cama onde recebia seus clientes, sob seu ponto de vista, era seu próprio confessionário.
O menino e os baobás
A primeira vez em que o menino se deparou e subiu numa figueira foi uma revelação.
Acompanhando as formigas a escalar aquele tronco imenso, como um formigueiro humano transitando numa metrópole vertical à la Avatar, o garoto percebeu que um mundo inteiro poderia caber numa árvore.
E passou a colecionar árvores gigantes na memória, como baobás e sequóias que habitam tanto o reino da fantasia quanto o real, mas que ficam melhor plantadas no primeiro.
Muito antes de qualquer sugestão de terapeuta, o menino aprendeu o valor revigorante de abraçar árvores em pleno Parque do Ibirapuera, sem medo do ridículo, afinal, essas "viagens" são mais do que permitidas aos inocentes menores de 10 anos.
O menino nunca entendeu campanhas de preservação do tipo "plante uma árvore", porque jamais passou por sua cabeça a necessidade de replantar algo que nunca deveria ter saído de lá.
Também nunca participou de ongs ambientais, nunca votou no PV e até hoje não sabe do que se trata o Protocolo de Kyoto.
Em sua cabeça, árvores eram mundos inesgotáveis tanto na Amazônia quanto na pracinha em frente à sua casa.
Mais tarde, já adolescente e caído de paixão pelo primeiro amor, o menino descobriu a moda antiga de registrar amores eternos no tronco de uma árvore.
E teve mais uma razão para amá-las ainda mais, as árvores.
E quando veio a moda dos virais de internet, ao assistir o video "as arvores somos noizes", o menino não achou a menor graça naquele mensagem óbvia - claro que as árvores somos nóizes!
Mais tarde, quando o descaso fez da floresta tropical um imenso deserto, e as árvores das cidades já não passavam de esqueletos renitentes carcomidos pela infestação de cupins, o menino já homem feito percebeu que lhe haviam arrancado a árvore de sua infância.
Por baixo da máscara de oxigênio, o ex-menino não conseguia esconder seus olhos marejados ao se deparar cercado por um vazio infinito de concreto.
E desejou ser não mais uma árvore, e sim um morcego, porque agora o mundo estava de cabeça para baixo e tudo que ele queria era enxergar o antigo de novo.
Acompanhando as formigas a escalar aquele tronco imenso, como um formigueiro humano transitando numa metrópole vertical à la Avatar, o garoto percebeu que um mundo inteiro poderia caber numa árvore.
E passou a colecionar árvores gigantes na memória, como baobás e sequóias que habitam tanto o reino da fantasia quanto o real, mas que ficam melhor plantadas no primeiro.
Muito antes de qualquer sugestão de terapeuta, o menino aprendeu o valor revigorante de abraçar árvores em pleno Parque do Ibirapuera, sem medo do ridículo, afinal, essas "viagens" são mais do que permitidas aos inocentes menores de 10 anos.
O menino nunca entendeu campanhas de preservação do tipo "plante uma árvore", porque jamais passou por sua cabeça a necessidade de replantar algo que nunca deveria ter saído de lá.
Também nunca participou de ongs ambientais, nunca votou no PV e até hoje não sabe do que se trata o Protocolo de Kyoto.
Em sua cabeça, árvores eram mundos inesgotáveis tanto na Amazônia quanto na pracinha em frente à sua casa.
Mais tarde, já adolescente e caído de paixão pelo primeiro amor, o menino descobriu a moda antiga de registrar amores eternos no tronco de uma árvore.
E teve mais uma razão para amá-las ainda mais, as árvores.
E quando veio a moda dos virais de internet, ao assistir o video "as arvores somos noizes", o menino não achou a menor graça naquele mensagem óbvia - claro que as árvores somos nóizes!
Mais tarde, quando o descaso fez da floresta tropical um imenso deserto, e as árvores das cidades já não passavam de esqueletos renitentes carcomidos pela infestação de cupins, o menino já homem feito percebeu que lhe haviam arrancado a árvore de sua infância.
Por baixo da máscara de oxigênio, o ex-menino não conseguia esconder seus olhos marejados ao se deparar cercado por um vazio infinito de concreto.
E desejou ser não mais uma árvore, e sim um morcego, porque agora o mundo estava de cabeça para baixo e tudo que ele queria era enxergar o antigo de novo.
Début
Os blogs em geral funcionam como diários eletrônicos que são mais ou menos reflexo do que anda acontecendo na sua vida.
Este aqui pretende ser um diário de bordo da minha mente, que vez em sempre adora dar umas escapadas e vagar por aí sem rumo.
Este aqui pretende ser um diário de bordo da minha mente, que vez em sempre adora dar umas escapadas e vagar por aí sem rumo.
Assinar:
Postagens (Atom)