domingo, 27 de fevereiro de 2011

Sepultamento

Carlos acordou tarde, com um gosto amargo de álcool mal digerido na boca, ao som estridente do interfone.
Era Lila, disse o porteiro.
Manda subir, disse Carlos.
Já era o combinado que ela viria pegar suas coisas, depois de meses de separações e reatamentos mal-sucedidos.
A gota d´água não fora o arranca-rabo costumeiro, mas acima de tudo a constatação de que a redenção não viria e não sobraria nem mesmo o respeito por aqueles 10 anos juntos.
Melhor cada um ir pro seu lado do que permanecerem num embate de lutadores exauridos, onde aquele que se mantém de pé está tão nocauteado quanto o estrebuchado no chão.
Lila subiu rápido, se esquivou de Carlos e foi logo "zipar" gavetas e mais gavetas de pertences dentro de apenas duas malas, as mesmas usadas nas últimas férias felizes do casal.
Mal disse palavra e saiu sem nem mesmo bater a porta, avisando que viria pegar "alguma coisa". Presume-se que a parte que lhe caberia depois da partilha de bens móveis do casal.
O paladar de álcool se misturou ao gosto amargo do fracasso, e Carlos sentiu descer-lhe garganta abaixo o desespero, como um paciente moribundo de UTI que já estivesse há dias desenganado, mas que nutria um frágil fio de esperança que nem fez ruído ao se partir.
Três meses depois da separação, já com os bens divididos, inclusive o apartamento, Carlos tomou uma resolução.
Vendeu os móveis que lhe restou, livrou-se da maioria das roupas e objetos de estimação, até cortou o cabelo e tirou a barba que lhe envelhecia fazia uns bons sete anos.
Pediu demissão na empresa e comprou passagens para Belém, com destino à Ilha de Marajó.
Estava decidido, assumiria uma nova identidade e entraria numa espécie de programa de defesa da testemunha auto-imposto.
Morreria para o mundo e apareceria num novo lugar, começando uma nova trajetória do zero, como uma fênix queimada, mas só por dentro.
Ao entrar na área de embarque, um sentimento de renovação invadiu-lhe as ventas como nunca o fizera.
Há tempos que o verdadeiro Carlos não assumia aquele corpo invadido por alguém que ele não só não reconhecia, mas que parecia tragar-lhe a alma aos poucos.
Ainda que o Carlos de agora não fosse aquele Carlos que se apaixonou e casou com Lila. Nem o Carlos que entrou na faculdade dos sonhos e fez quatro anos valerem por vinte.
Nem tampouco o Carlinhos que um dia se viu tocando o solo de marte em aeronaves de massinha de modelar.
Porque o novo Carlos nem Carlos se chamava.
Agora era Luana.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O super-herói das letras

Ele não se enquadrava em nenhuma categoria de super-herói.
Definitivamente não.
Ou você chamaria de herói alguém que atende a pessoas em dificuldade usando poemas como remédios?
Pois era assim que Carlos, que estava longe de ser um Drummond de Andrade, agia.
Em momentos de total desesperança, Carlos surgia com alguma pérola de Keats, E.E.Cummings, Adélia Prado, Pablo Neruda, o que fosse conveniente para confortar a alma precisada de socorro.
Ali não importava tanto o autor do poema, desde que de seu conteúdo, na voz talentosa de Carlos, surtisse um efeito de apaziguamento interior imediato.
E Carlos era bom nisso.
Quantas vezes sua aparição repentina não consolou indivíduos em total desconforto emocional.
Casos de morte, doença terminal, fins de relacionamento, ruína financeira, várias delas tiveram em Carlos uma tábua de salvação, aquela bóia que levou o indivíduo psicologicamente moribundo de volta à margem.
Fisicamente, Carlos não era nem arremedo de super-herói.
Magrinho em pele e osso, ninguém poderia supor que ele fosse capaz de tirar o próximo do limbo.
Isso até ouvir Carlos entoar um poema.
Mesmo os desprovidos de qualquer base cultural se rendiam imediatamente à doçura das palavras que aos poucos invadia os ouvidos dos presentes, levando-os a outro patamar metafísico, acalentador, revigorante.
Carlos era sim, do alto de seus 1,58 de altura, um gigante, um anjo da guarda daqueles que não viam mais graça no correr dos dias.
Conta-se que até religiosos de fé inabalável já receberam a visita de Carlos em momentos de vacilo de sua crença.
Porque a arte às vezes consegue ser antídoto mais eficaz que a própria fé cega das bandeiras religiosas.