segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Redenção - parte 1

Josué era do tipo calado, de fazer antes de falar, e talvez por isso foi designado como primeiro soldado, aquele que vigia a entrada da boca na favela. De poucas palavras e ações destemidas, Josué seguia a cartilha do Comando, pronto para atirar à menor ameaça de invasão pelo inimigo. Inclue-se em inimigo qualquer pessoa ou veículo que ultrapassasse a linha delimitada pela posição de Josué, que servia de sentinela de um muro imaginário, porém mais temido e intransponível que muitas barreiras concretas. Ao lado dele trabalhava Foguinho, o fogueteiro veterano incumbido de dar o alerta ao menor sinal de anomalia na rotina vigiada da favela. Quando naquela tarde de maio a perua Kombi com vidros filmados subiu em disparada a rua principal, seguiu-se uma saraivada de projéteis saídos da AR-15 de Josué, acertando em cheio a lataria da Kombi. Foguinho, estirado no chão depois de um farto almoço no boteco do Seu Olimpio, só lançar ao ar o primeiro foguetório muito depois de Josué se aproximar da carcaça da Kombi e abrir sua porta para render prováveis sobreviventes. E havia sim um rapaz que se safara, pois se encontrava atrás dos sacos de mantimentos, que sem querer formaram uma trincheiro para protegê-lo do profissionalismo de Josué. A mesma sorte não tiveram os dois ocupantes da frente, reduzidos a peneiras humanas ensangüentadas. Mais tarde os dois souberam do equívoco: atiraram em um veículo de ONG que trazia donativos arrecadados em jogo beneficente entre os veteranos de Vasco e Cruzeiro. Josué pensou que Roberto Dinamite não perdoaria tamanho vacilo. Internamente, o rapaz se corroía de culpa por um ato que a seu ver não poderia ser remediado. E embora não recebera uma só advertência do comando, em seu íntimo o juiz interno o castigava com as chicotadas do remorso. Foi demais para Josué, que acima de tudo era um bom rapaz temente a Deus. Josué usou de seus conhecimentos como combatente voluntário das FARC para fugir e se esconder dos guardas do comando. Depois de duas semanas entocado em casas de conhecidos, achando que arriscava a vida de quem lhe oferecia abrigo, Josué decidiu fugir para um mosteiro, para onde iria na adolescência se não tivesse virado aviãozinho do tráfico. O padre lhe acolheu com toda a compreensão, emprestando a Josué seus ouvidos por quanto tempo fosse necessário. E não foram poucas as horas que o rapaz passou debruçado no confessionário, desejando purgar o mínimo resquício de sua recém adquirida aura de assassino. Tantos terços girados não deram resultado, culminando com a fuga de Josué do mosteiro. Josué precisava de sua redenção e ela não viria da boca do padre.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Figurinha carimbada

Quando o idoso de cabeça branca proferiu a fatídica pergunta, ele hesitou.
Por um instante sentiu um frio nascer na espinha e se espalhar por todos os ossos do corpo.
Afinal, aquela mulher ao lado ainda era uma estranha.
Alguém com quem tinha dividido um mojito num bar e, um instante depois, acordado ao seu lado.
Sabia que os efeitos etílicos eram perversos para avaliações de parceiros de noite e aquela loira dormente ao seu lado não seria exceção.
Mas bastou uma virada de lado e um murmúrio sonâmbulo para ele mudar de idéia.
Jean retribuiu quele sorriso involuntário de canto de boca, como um código entre verdadeiros pares.
Aquela não era uma completa estranha.
Mas que ninguém se precipite achando que Jean, em seu pragmatismo de macho do interior, julgaria ser caso de almas gêmeas.
Seria capaz de esbofetear quem sequer insinuasse uma viadagem dessas.
Mas Ana não lhe era estranha.
Mesmo aquele rosto lavado, de pálpebras descerradas tal qual persianas de madeira, não era menos familiar que o de sua mãe ou irmã.
Ana causava um desconforto confortável em Jean, que ao mesmo tempo intrigava e acalmava.
Foi esse sentimento que o fez tomar uma decisão que à maioria poderia parecer precipitada.
Por isso a sua momentânea hesitação.
Quer dizer, hesitação para os outros, porque para Jean foi como aquele filme que passa na cabeça na iminência da morte.
E de alguma forma aquilo era a morte de um estilo de vida, do qual nunca tivera a mínima reclamação.
O filme passou tão rápido que poderia provocar um curto-circuito em seus neurônios.
Teve frames da infância, da adolescência de galã, da imaturidade de sua fase corporativa e finalmente, sua afirmação como artista plástico consagrado.
Passagens do primeiro beijo, sua primeira namorada, com suas duas ex-mulheres e o nascimento do três filhos.
E finalmente, Ana.
Foi aí que Jean percebeu algo estranho no quadro a quadro de sua vida.
Mais atento às cenas, ele percebeu aparições de Ana no segundo plano em quase todas as passagens importantes de sua vida.
No seu primeiro beijo, ela era a bilheteira do cinema.
Na compra de seu primeiro carro, vendedora da concessionária.
Em sua formatura, organizadora da festa.
Em seu primeiro casamento, a câmera do video-lembrança.
No nascimento do primogênito, a enfermeira.
Em sua primeira vernissage, uma curiosa.
Aquele onipresença retrospectiva encheu Jean de confiança, fazendo-o despertar de seu estado alfa provocado por um formigamento que ia dos joelhos ao calcanhares.
E prontamente ele respondeu "SIMMMM!!!" ao padre, com uma energia e veemência que arrancou gargalhadas da platéia.
Jean enfim encontrara a mulher de sua vida.
Para alívio dela, que se cansara de perseguí-lo por quase 30 anos.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

O compositor de ringtones

Com apenas 2 anos, Wolfgang já tocara os primeiros acordes do "bife".
Ou pelo menos foi assim que sua mãe, Sonia, fãzoca de música clássica (ou crássica, como ela costumava chamar) e meio surda, interpretou o lampejo de talento precoce de seu primogênito.
Já seu pai, Wander, torneiro mecânico e excelente batucador de caixa de fósforos, não estava presente ao "milagre".
Por isso, com apenas 50% de constatação, não foi surpresa que a genialidade de Wolfgang não tivesse desabrochado até a idade de 37 anos - o que fez Dona Sonia suspeitar de um dom tardio.
Bem, mas o fato é que Wolfgang começou a ganhar a vida dentro do meio musical sim, e como grande compositor.
Mas de ringtones.
Ringuitônis? Que p. é essa?,saiu brandindo o velho Wander pela casa, quando do primeiro projeto de Wolfgang aprovado na Samsung.
Como assim, não sabe o que é um ringtone, Wander?, respondeu Dona Sonia.
Bem, ele não conhecia o termo, mas como todo mundo com mais de 40 anos no bairro chamava, era aquele musiquinha que o celular toca.
E quando entendeu que era um meio de vida lucrativo, Wander ficou satisfeito em saber que seu pimpolho estava longe das aspirações artísticas planejadas por Dona Sonia.
Esta, na frente dos outros se mostrava orgulhosa dos feitos de seu rebento, embora por dentro se sentisse apenas resignada, esperançosa de presenciar futuras manisfestações artísticas do filho que ecoassem suas premonições.
O fato é que Wolfgang, embora não admitisse, também esperava mais de si mesmo.
Não que não se sentisse seguro e orgulhoso do contracheque gordo que caía sua conta a cada ringtone inspirado saído de seu sampler.
Mas todo o repertório musical transmitido por sua mãe, somado aos fascículos de música clássica da coleção folha, acabou por criar uma expectativa sobre si mesmo.
Por isso Wolfgang acabou por abandonar a Samsung sem aviso prévio - provocando a ira de coreanos perplexos.
Colocou seu teclado debaixo do braço e decidiu por se manter temporariamente de acordes remunerados em portas de metrô.
Mas o que era provisório acabou por duras meses, anos.
E nesse tempo todo, Wolfgang nunca mais cruzou com seus pais, que usavam o fusca velho até para comprar pão na esquina.
Mas certo dia, numa passagem pelo corredor do metrô, o dono de uma bem sucedida gravadora de clássicos foi pego pelo ouvido por notas escolhidas a dedo.
Foi paixão ao primeiro arpejo.
Wolfgang foi contratado como solista para uma série de gravações de peças clássicas.
E tornou-se solicitadíssimo em apresentações de orquestra.
Tudo isso sem que seus pais jamais soubessem, sob o pseudônimo de Joseph Mobile.

domingo, 25 de setembro de 2011

Amor eletrônico

Os pais de Xande andavam preocupados.
O rapaz, já um homenzarrão na flor dos seus 18 anos, por dentro continuava o mesmo garotinho que um dia ganhou um videogame de Natal e nunca mais foi o mesmo.
A chegada da puberdade era a última esperança de desconectar Xande dos games e jogá-lo na vida.
Coisa que acontecia com todos os seus melhores amigos, que, eriçados pela dança dos hormônios nas veias, saltavam para fora de casa como as espinhas de sua pele.
O mãe de Xande até que não se importava tanto com o desinteresse de seu filho pelas meninas.
Afinal, ainda se sentia a mulher da vida do seu filho.
Já o pai se importava com a opinião alheia, não desejava ficar falado como pai de um rapaz com porte de garanhão, mas com alma de maricas.
Foi então que os cônjuges resolveram tomar uma atitude.
Arrumariam uma namorada para seu filho e a ocasião não poderia ser mais propícia: a próxima feira de games na cidade.
Seria uma solução passageira, já que a garota, a namorada de aluguel, seria contratada como uma freelancer para 4, no máximo 5 meses.
Também havia o risco de machucar o coração de Xande, findo o contrato de sua falsa namorada.
Mas tudo isso era balela perto de seu filho continuar em seu autismo eletrônico.
Por isso, no dia da feira, lá estava Monica devidamente postada e brifada no estande com o jogo preferido de Xande, o Street-Fighter.
Monica, com sua lábia de garota de programa, logo enfeitiçou o ingênuo nerd, e os dois já saíram da feira no mesmo dia, direto para a casa dela.
Foram semanas onde parecia que Xande habitava outra dimensão, à parte daqueles que só as ligações neurais entre seu cérebro e as mãos de gamemaníaco conheciam.
As respostas de seu corpo aos estímulos daquela exploração de estréia ao corpo de uma mulher, produzia no garoto sensações que até mudaram sua fisionomia.
Não parecia mais aquele Xande franzino de antes, e sim um homem.
Um homem no sentido que os pais adoram encher a boca para dizer "meu filho agora é um homem".
Não era sem tempo, afinal Xande estava no auge da juventude, fase em que o sangue corre nas veias ao sabor da vontade do dono, em ritmo de velocista ou de maratona.
Foi um período intenso de deleite, que a principio manteve Xande ocupado em seu quarto como já fazia o videogame.
Mas que depois também ganhou as ruas, com todos os amigos que já haviam abandonado Xande celebrando sua volta à luz do dia ao lado de uma mulher não menos solar.
Só que tudo que é bom na vida dura pouco, como diria a avó da avó da minha avó.
E não necessariamente migra para algo ainda mais evoluído; no caso, sucumbiu às velhas tentações que subjugavam os pólos cerebrais de Xande.
Xande deixou Monica, que inclusive já cumprira seu contrato e estava enamorada do garoto.
Xande deixou Monica pelo antigo amor de sua vida: Chun-Li, a heroína de Street Fighter, companheira de horas intermináveis de exposição à tela de LCD.
Pois se sempre voltamos para o seio, para o que representa nosso aconchego, era natural que o garoto voltasse aos braços de Chung-Li, aquela sua namorada eletrônica de tantas noites mal dormidas, de tantas fases e novas versões do jogo.
E para quem sugerir que Chun-Li não poderia ser sua namorada, devido à sua constituição de bits impalpáveis, Xande responde com o silêncio.
Ou melhor, responde com um apertar de botões enfurecido, a controlar os golpes de Chun-Li em cada luta, submetendo-a à sua sandice de derrotar o mundo, eis a verdadeira fonte de seu prazer.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O apanhador de suor

Mau, como era chamado pelos amigos, era um fã incondicional do rock.
Quer dizer, da música pop ao vivo em geral, pois não negava fogo em qualquer evento musical da cidade.
Podia ser arena, estádio, passarela do samba, estacionamento improvisado, onde quer que um palco pudesse ser montado, lá estava Mau na primeira fila, vibrando mais que qualquer membro de fã clube.
Engana-se quem pensa que Mau conhecia todas as bandas e músicas.
Nada.
O normal era vê-lo improvisar uma "lá-lá-lá-lá" como trilha sonora fora de compasso para sua coreografia carente de ritmo.
Mas pensa que Mau se importava?
Tsc,tsc, o homem estava quase sempre em seu mundinho muito particular para se importar com qualquer que fosse a opinião alheia.
E fazia bem, porque eram frequentes as galhofas de quem cercava Mau e quase sempre o tinha como um bêbado ou louco desvairado fugido do juqueri.
Mas isso não acontecia quando Mau era visto assistindo ao show da coxia do palco.
Aí até pensavam que Mau fazia parte do staff e portanto gozava de status junto ao público, especialmente as groupies que se juntavam na frente do palco.
Uma vez até acabou acordando num quarto do mesmo hotel da banda, tendo ao lado uma ruiva maravilhosa que o havia confundido com o baterista.
Ou coisa parecida porque o baterista tinha o biotipo oposto de Mau.
Falando nisso, com sua cabeça careca lustrosa e não mais que 1,50 m de altura, Mau poderia ser confundido com o mascote de qualquer banda de gosto bizarro.
A verdade era que Mau escondia uma identidade secreta no meio do show bizz.
O cabra era um empresário do ramo textil muito bem sucedido.
Alguns dos seus principais clientes eram empresas promotoras de shows, cujos pedidos excêntricos de toalhas para suas afetadas estrelas contratadas representavam um gordo adicional em seu faturamento.
Quinhentas toalhas brancas ali, mais oitocentas aqui, quase sempre devolvidas e colocadas de novo à venda, eram não só garantia de faturamento gordo como oportunidade de exposição de marca.
Assim seguia Mau, que de show em show e de toalha em toalha, tinha aprendido como ninguém a conciliar trabalho com diversão.
Curtindo a vida às custas do suor dos outros.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Ode aos anônimos

Nos 8 meses finais da carreira de Juca Bala, Alvinho acompanhou cada passo de seu craque favorito do Tonense Futebol Clube.
Cada passe, cada lançamento, cada carrinho, cada bola perdida.
E se alguém imaginar que isso foi tarefa de qualquer torcedor fanático, está quadradamente enganado.
Era preciso ser torcedor doente em estado terminal para acompanhar Juca.
Porque ultimamente o veterano não passava de quarta, quinta opção do técnico para comandar o ataque do Tonense.
De modo que para assistir ao craque, Alvinho tinha que acordar cedo para pegar o treino do time.
Porque para os jogos oficiais, ele já não era relacionado havia meses.
Juca sempre foi jogador mediano, daqueles contratados para compor o elenco.
Foi assim nos dezesseis outros times que defendeu.
Mas para Alvinho isso não tinha a menor importância.
O garoto não se conformava com a aposentadoria do craque, que fora solenemente ignorada por diretoria, imprensa e torcedores.
Alvinho soubera pelo roupeiro que a saída de Juca Bala tinha até data marcada.
E tinha seu plano para não vê-la passar em branco.
Por email, Alvinho convocara centenas de jogadores que um dia tiveram a honra de dividir a mesma camisa, ainda que no banco de reservas, com Juca Bala.
De mais de 280 emails, disparados, somente 11 tinham confirmado presença para o jogo-despedida, que ocorreria num campo de várzea da cidade.
Não importa, Alvinho daria um jeito de compor o outro time.
Bastou convocar a galera das organizadas, que apesar dos apupos que costumavam dirigir a Juca Bala, sentiam-se até aliviados por esse adeus.
Na data marcada, estavam todos presentes.
O time de ex-colegas do craque e o dos torcedores.
Só faltava aparecer mesmo Juca Bala.
Que de última hora, para alegria de Alvinho, não compareceu.
Por problema de contusão e suspensão, Juca Bala fora convocado para um jogo decisivo do campeonato.
Para o banco, claro.
Mas qual não foi a alegria de Alvinho quando viu seu craque entrar em campo para defender o Tonense no derradeiro jogo de sua vida.
E ainda marcar o gol que livraria o time da Quarta Divisão.
Uma despedida digna do craque perna-de-pau que alimentava os sonhos do garoto Alvinho.

sábado, 17 de setembro de 2011

Como tem que ser

Guedes era um nordestino de físico atarracado, zelador de prédio em São Paulo, tipo pacato e crente a Deus, cuja sorte sempre entregou aos desmandos do Senhor.
Padilha, um filho de cearenses nascido na capital, um motoboy que pilota destemido pelas ramificações das vias paulistanas, que então vivia às voltas com uma mãe doente, sua última parente viva.
Certo dia Guedes, que pregava um estilo de vida frugal, foi abençoado - ou seria amaldiçoado - pelo destino, que lhe presenteou com um bilhete premiado de loteria.
Não que Guedes aspirasse a qualquer tipo de vida confortável, pelo contrário, a mínima manifestação de luxúria lhe era temeroso por sua formação religiosa.
Mas fazia sim sua fézinha de vez em quando, como para provar que não nascera mesmo para as leviandades mundanas.
Padilha, ao contrário, sempre aspirou largar sua dura rotina de ziguezagueante andarilho, a ganhar o pão suado entre uma e outra entrega de despachante. Mas recentemente viu sua necessidade de fazer fortuna ser substituída por uma causa nobre, pagar o transplante clandestino de rim da mãe, que vinha definhando a cada hemodiálise.
Pois o causo se deu exatamente naquele dia em que Guedes,ao ser agraciado com alguns milhares de reais e já se sentindo desconfiado de destino tão insólito, acabou convencido pelo pessoal do condomínio a buscar o pecaminoso prêmio.
Guedes montou em sua bicicleta e, rezando aves-marias sem cessar, se dirigiu ao seu calvário mercantilista, fazendo planos de doar seu dinheiro para manter abertas as portas do paraíso.
Chegando à lotérica, pediu total discrição ao extasiado gerente - este poderia enfim fazer publicidade de pé quente de seu ponto - para receber o prêmio em dinheiro, de preferência em notas miúdas, já em tamanho adequado para a caridade.
O gerente fez a vontade de Guedes, enchendo sua mochila puída de notas descontadas na agência bancária ao lado. A missão do zelador agora era chegar são e salvo ao prédio, evitando os olhares gulosos dos curiosos que se amontoaram na frente da lotérica.
No caminho para casa, o coração de Guedes batia de tal forma a lhe ensurdecer os ouvidos para os ruídos da rua. A compassada bateria interior tomou conta da avenida, ditando o ritmo das pedaladas daquele fim de tarde afortunado.
Foi quando o incidente ocorreu. Guedes, ao virar bruscamente uma esquina, acabou se chocando em uma moto que se afastava da guia de ré, Padilha a bordo.
A bicicleta se estatelou junto com seu piloto, jogando a mochila pelos ares, agarrada por Padilha.
Ao encarar o motoboy, que lhe pareceu tão mal apessoado, Guedes teve a confirmação de que o dinheiro já lhe trazia maus presságios. E nem se deu ao trabalho de reclamar a posse da mochila, subindo de novo em sua bicicleta e sumindo ladeira abaixo na velocidade de seu coração em disparada.
Padilha,estupefato, ficou a acenar para o ciclista e quase deu a partida na moto para lhe fazer a devolução.
Mas ao examinar seu conteúdo e descobrir a fortuna ali contida, seus olhos começaram a verter lágrimas de alegria, pois a soma batia com a montante necessário ao tratamento da mãe.
Imaginou se tratar de um anjo salvador enviado pelas preces da família, pois ele há tempos que não creditava à fé nenhuma possibilidade de salvação.
Mas foi de bom grado que aceitou a ajuda da providência divina para a consequente recuperação da mãe, o que enfim lhe fez reconvertido à fé espiritual.
Agora, todo domingo Padilha presta agradecimentos àquele anjo enviado por Deus. Uma vez, ainda que por breves instantes, pensou até ter enxergado de novo o anjo na igreja, mas logo atribuiu a alucinação a uma dose sobressalente de cachaça matinal.
Mas de fato, naquela manhã Guedes havia passado pela paróquia que não costumava frequentar, apenas para agradecer por ter se livrado do pesado fardo de dar destino a dez mil reais em notas miúdas.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Amor drive thru

O amor de Pedro e Aline poderia ser descrito como um caso fugaz.
Isso se ele ainda não durasse até os dias de hoje.
A maneira como ele começou e continua é que pode ser chamada de fugaz.
Foi mais ou menos assim.
Aline trabalhava como atendente de cabine de um drive thru de lanchonete.
Naquela cabine que entrega os lanches e põe o vendedor em contato direto com o cliente ao volante.
Pedro passava para pegar um lanche e ir para casa, num daqueles finais de noite onde, lembrando-se de sua geladeira vazia, tratou de garantir o estômago forrado antes das curtas horas de sono que tinha pela frente.
Não era habitual frequentar aquele drive thru, pois este ficava perto da sede de um dos seus clientes e não da sua empresa ou de sua casa.
Mas bastou receber seu lanche das mãos daquela loira gracinha para fazer das suas visitas ao cliente uma rotina quase diária.
A ponto de seu cliente nunca ter se sentido tão bem atendido.
Lanche vai, lanche vem e não tardou para o casal ficar caidinho um pelo outro.
Mas o máximo que conseguiam naquele curto contato era roubar um selinho molhado, sob os protestos buzinados dos estressados motoristas de trás na fila.
O que acabou forçando um encontro entre os dois, marcados num dia de folga de Aline.
Pedro a pegou pontualmente em casa e o casal cumpriu com o itinerário programado de cinema, restaurante, casa de Aline e malho no sofá.
Mas no final algo não saiu como o esperado.
Toda a rica programação da noite não chegava perto em excitação aos poucos minutos que cliente e atendente flertavam separados pela janela da cabine e do carro de Pedro.
Mais algumas tentativas de sair juntos só terminaram por naufragar de vez o romance incipiente.
De modo que Pedro e Aline pararam de se ver.
Mesmo quando Pedro embicava o carro nom drive thru, Aline o evitava, mandando o Soneca atender na cabine.
De tal forma que Pedro também desistiu de procurá-la.
Até que um dia, dois anos depois, Pedro, em viagem de visita a um cliente do interior, acabou por reencontrar Aline.
Desta vez numa cabine de pedágio.
A paixão voltou a se acender.
Mas desta vez eles não quiseram se arriscar.
O relacionamento guardaria aquela distância segura entre uma janela de cabine e a janela do motorista.
E assim tem sido até hoje, entre uma buzinada do carro de trás no pedágio e a imcompreensão do cliente do interior, visitado semanalmente por um Pedro apaixonado.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Sepultamento

Carlos acordou tarde, com um gosto amargo de álcool mal digerido na boca, ao som estridente do interfone.
Era Lila, disse o porteiro.
Manda subir, disse Carlos.
Já era o combinado que ela viria pegar suas coisas, depois de meses de separações e reatamentos mal-sucedidos.
A gota d´água não fora o arranca-rabo costumeiro, mas acima de tudo a constatação de que a redenção não viria e não sobraria nem mesmo o respeito por aqueles 10 anos juntos.
Melhor cada um ir pro seu lado do que permanecerem num embate de lutadores exauridos, onde aquele que se mantém de pé está tão nocauteado quanto o estrebuchado no chão.
Lila subiu rápido, se esquivou de Carlos e foi logo "zipar" gavetas e mais gavetas de pertences dentro de apenas duas malas, as mesmas usadas nas últimas férias felizes do casal.
Mal disse palavra e saiu sem nem mesmo bater a porta, avisando que viria pegar "alguma coisa". Presume-se que a parte que lhe caberia depois da partilha de bens móveis do casal.
O paladar de álcool se misturou ao gosto amargo do fracasso, e Carlos sentiu descer-lhe garganta abaixo o desespero, como um paciente moribundo de UTI que já estivesse há dias desenganado, mas que nutria um frágil fio de esperança que nem fez ruído ao se partir.
Três meses depois da separação, já com os bens divididos, inclusive o apartamento, Carlos tomou uma resolução.
Vendeu os móveis que lhe restou, livrou-se da maioria das roupas e objetos de estimação, até cortou o cabelo e tirou a barba que lhe envelhecia fazia uns bons sete anos.
Pediu demissão na empresa e comprou passagens para Belém, com destino à Ilha de Marajó.
Estava decidido, assumiria uma nova identidade e entraria numa espécie de programa de defesa da testemunha auto-imposto.
Morreria para o mundo e apareceria num novo lugar, começando uma nova trajetória do zero, como uma fênix queimada, mas só por dentro.
Ao entrar na área de embarque, um sentimento de renovação invadiu-lhe as ventas como nunca o fizera.
Há tempos que o verdadeiro Carlos não assumia aquele corpo invadido por alguém que ele não só não reconhecia, mas que parecia tragar-lhe a alma aos poucos.
Ainda que o Carlos de agora não fosse aquele Carlos que se apaixonou e casou com Lila. Nem o Carlos que entrou na faculdade dos sonhos e fez quatro anos valerem por vinte.
Nem tampouco o Carlinhos que um dia se viu tocando o solo de marte em aeronaves de massinha de modelar.
Porque o novo Carlos nem Carlos se chamava.
Agora era Luana.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O super-herói das letras

Ele não se enquadrava em nenhuma categoria de super-herói.
Definitivamente não.
Ou você chamaria de herói alguém que atende a pessoas em dificuldade usando poemas como remédios?
Pois era assim que Carlos, que estava longe de ser um Drummond de Andrade, agia.
Em momentos de total desesperança, Carlos surgia com alguma pérola de Keats, E.E.Cummings, Adélia Prado, Pablo Neruda, o que fosse conveniente para confortar a alma precisada de socorro.
Ali não importava tanto o autor do poema, desde que de seu conteúdo, na voz talentosa de Carlos, surtisse um efeito de apaziguamento interior imediato.
E Carlos era bom nisso.
Quantas vezes sua aparição repentina não consolou indivíduos em total desconforto emocional.
Casos de morte, doença terminal, fins de relacionamento, ruína financeira, várias delas tiveram em Carlos uma tábua de salvação, aquela bóia que levou o indivíduo psicologicamente moribundo de volta à margem.
Fisicamente, Carlos não era nem arremedo de super-herói.
Magrinho em pele e osso, ninguém poderia supor que ele fosse capaz de tirar o próximo do limbo.
Isso até ouvir Carlos entoar um poema.
Mesmo os desprovidos de qualquer base cultural se rendiam imediatamente à doçura das palavras que aos poucos invadia os ouvidos dos presentes, levando-os a outro patamar metafísico, acalentador, revigorante.
Carlos era sim, do alto de seus 1,58 de altura, um gigante, um anjo da guarda daqueles que não viam mais graça no correr dos dias.
Conta-se que até religiosos de fé inabalável já receberam a visita de Carlos em momentos de vacilo de sua crença.
Porque a arte às vezes consegue ser antídoto mais eficaz que a própria fé cega das bandeiras religiosas.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Nadando de braçada

Como nadador, Luis não se encaixava naquilo que chamamos de talento nato.
Embora, quando jovem, tivesse sido apontado pelo pessoal do clube como promessa, o que levou o jovem a sonhar com conquistas importantes dentro d´água.
Não era o caso e após passar por aquela fase em que dão tempo às pedras brutas, Luis caiu no ostracismo dos atletas medianos, num país, como bem sabemos, que desvaloriza tudo que é menos do que o topo do podium.
A virada, sem trocadilho, aconteceu numa prova sem importância do campeonato amador da cidade. Luis, que se classificara às duras penas para a final, surpreendentemente atropelou os adversários e bateu o recorde brasileiro da prova.
O que de inicio jogou suspeitas de doping, mas logo isso foi desmentido e Luis foi tido como um fenômeno adormecido, que acordara do limbo rumo à glória inesperada.
Logo ele estava representando o clube nas mais diversas competições, sempre vencendo e conquistando um lugar na seleção brasileira, bem como se transferindo para um centro de treinamento nos EUA.
Na verdade Luis guardava um segredo que possibilitava toda a sua ascenção atlética.Logo após a vitória que marcara sua reviravolta, ele percebeu que se esquecera de depilar, tamanho o descrédito que depositava em si mesmo.
E foi justamente esse o diferencial competitivo: por toda sua pele começou a nascer pequenas escamas naturais, que aumentava sensivelmente seu deslizamento na água.
Infelizmente, um dia esse segredo veio literalmente à tona e foi considerado uma espécie de doping pela federação internacional de natação, rendendo uma severa punição e levando Luis a optar por uma espécie de depilação definitiva de suas escamas para voltar legalmente às competições.
O que obviamente devolveu a Luis suas antigas condições limitadas na piscina, fazendo sua carreira despencar, tirando-lhe apoios e patrocínios, enfim, quase encerrando sua epopéia nas piscinas.
Anos mais tarde revelou-se que o nadador fora apenas um dos primeiros casos de mutação genética na espécie devido ao consumo de produtos agrícolas modificados.
A federação acabou por autorizar essa "roupa natural" e reconheceu que cometeu o erro com Luis, que acabou ganhando uma boa indenização.
Hoje Luis voltou a competir e a se tornar campeão. Só que, sendo uma amputado de escamas, agora brilha entre os para-olímpicos.