sábado, 17 de setembro de 2011

Como tem que ser

Guedes era um nordestino de físico atarracado, zelador de prédio em São Paulo, tipo pacato e crente a Deus, cuja sorte sempre entregou aos desmandos do Senhor.
Padilha, um filho de cearenses nascido na capital, um motoboy que pilota destemido pelas ramificações das vias paulistanas, que então vivia às voltas com uma mãe doente, sua última parente viva.
Certo dia Guedes, que pregava um estilo de vida frugal, foi abençoado - ou seria amaldiçoado - pelo destino, que lhe presenteou com um bilhete premiado de loteria.
Não que Guedes aspirasse a qualquer tipo de vida confortável, pelo contrário, a mínima manifestação de luxúria lhe era temeroso por sua formação religiosa.
Mas fazia sim sua fézinha de vez em quando, como para provar que não nascera mesmo para as leviandades mundanas.
Padilha, ao contrário, sempre aspirou largar sua dura rotina de ziguezagueante andarilho, a ganhar o pão suado entre uma e outra entrega de despachante. Mas recentemente viu sua necessidade de fazer fortuna ser substituída por uma causa nobre, pagar o transplante clandestino de rim da mãe, que vinha definhando a cada hemodiálise.
Pois o causo se deu exatamente naquele dia em que Guedes,ao ser agraciado com alguns milhares de reais e já se sentindo desconfiado de destino tão insólito, acabou convencido pelo pessoal do condomínio a buscar o pecaminoso prêmio.
Guedes montou em sua bicicleta e, rezando aves-marias sem cessar, se dirigiu ao seu calvário mercantilista, fazendo planos de doar seu dinheiro para manter abertas as portas do paraíso.
Chegando à lotérica, pediu total discrição ao extasiado gerente - este poderia enfim fazer publicidade de pé quente de seu ponto - para receber o prêmio em dinheiro, de preferência em notas miúdas, já em tamanho adequado para a caridade.
O gerente fez a vontade de Guedes, enchendo sua mochila puída de notas descontadas na agência bancária ao lado. A missão do zelador agora era chegar são e salvo ao prédio, evitando os olhares gulosos dos curiosos que se amontoaram na frente da lotérica.
No caminho para casa, o coração de Guedes batia de tal forma a lhe ensurdecer os ouvidos para os ruídos da rua. A compassada bateria interior tomou conta da avenida, ditando o ritmo das pedaladas daquele fim de tarde afortunado.
Foi quando o incidente ocorreu. Guedes, ao virar bruscamente uma esquina, acabou se chocando em uma moto que se afastava da guia de ré, Padilha a bordo.
A bicicleta se estatelou junto com seu piloto, jogando a mochila pelos ares, agarrada por Padilha.
Ao encarar o motoboy, que lhe pareceu tão mal apessoado, Guedes teve a confirmação de que o dinheiro já lhe trazia maus presságios. E nem se deu ao trabalho de reclamar a posse da mochila, subindo de novo em sua bicicleta e sumindo ladeira abaixo na velocidade de seu coração em disparada.
Padilha,estupefato, ficou a acenar para o ciclista e quase deu a partida na moto para lhe fazer a devolução.
Mas ao examinar seu conteúdo e descobrir a fortuna ali contida, seus olhos começaram a verter lágrimas de alegria, pois a soma batia com a montante necessário ao tratamento da mãe.
Imaginou se tratar de um anjo salvador enviado pelas preces da família, pois ele há tempos que não creditava à fé nenhuma possibilidade de salvação.
Mas foi de bom grado que aceitou a ajuda da providência divina para a consequente recuperação da mãe, o que enfim lhe fez reconvertido à fé espiritual.
Agora, todo domingo Padilha presta agradecimentos àquele anjo enviado por Deus. Uma vez, ainda que por breves instantes, pensou até ter enxergado de novo o anjo na igreja, mas logo atribuiu a alucinação a uma dose sobressalente de cachaça matinal.
Mas de fato, naquela manhã Guedes havia passado pela paróquia que não costumava frequentar, apenas para agradecer por ter se livrado do pesado fardo de dar destino a dez mil reais em notas miúdas.

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