domingo, 25 de setembro de 2011

Amor eletrônico

Os pais de Xande andavam preocupados.
O rapaz, já um homenzarrão na flor dos seus 18 anos, por dentro continuava o mesmo garotinho que um dia ganhou um videogame de Natal e nunca mais foi o mesmo.
A chegada da puberdade era a última esperança de desconectar Xande dos games e jogá-lo na vida.
Coisa que acontecia com todos os seus melhores amigos, que, eriçados pela dança dos hormônios nas veias, saltavam para fora de casa como as espinhas de sua pele.
O mãe de Xande até que não se importava tanto com o desinteresse de seu filho pelas meninas.
Afinal, ainda se sentia a mulher da vida do seu filho.
Já o pai se importava com a opinião alheia, não desejava ficar falado como pai de um rapaz com porte de garanhão, mas com alma de maricas.
Foi então que os cônjuges resolveram tomar uma atitude.
Arrumariam uma namorada para seu filho e a ocasião não poderia ser mais propícia: a próxima feira de games na cidade.
Seria uma solução passageira, já que a garota, a namorada de aluguel, seria contratada como uma freelancer para 4, no máximo 5 meses.
Também havia o risco de machucar o coração de Xande, findo o contrato de sua falsa namorada.
Mas tudo isso era balela perto de seu filho continuar em seu autismo eletrônico.
Por isso, no dia da feira, lá estava Monica devidamente postada e brifada no estande com o jogo preferido de Xande, o Street-Fighter.
Monica, com sua lábia de garota de programa, logo enfeitiçou o ingênuo nerd, e os dois já saíram da feira no mesmo dia, direto para a casa dela.
Foram semanas onde parecia que Xande habitava outra dimensão, à parte daqueles que só as ligações neurais entre seu cérebro e as mãos de gamemaníaco conheciam.
As respostas de seu corpo aos estímulos daquela exploração de estréia ao corpo de uma mulher, produzia no garoto sensações que até mudaram sua fisionomia.
Não parecia mais aquele Xande franzino de antes, e sim um homem.
Um homem no sentido que os pais adoram encher a boca para dizer "meu filho agora é um homem".
Não era sem tempo, afinal Xande estava no auge da juventude, fase em que o sangue corre nas veias ao sabor da vontade do dono, em ritmo de velocista ou de maratona.
Foi um período intenso de deleite, que a principio manteve Xande ocupado em seu quarto como já fazia o videogame.
Mas que depois também ganhou as ruas, com todos os amigos que já haviam abandonado Xande celebrando sua volta à luz do dia ao lado de uma mulher não menos solar.
Só que tudo que é bom na vida dura pouco, como diria a avó da avó da minha avó.
E não necessariamente migra para algo ainda mais evoluído; no caso, sucumbiu às velhas tentações que subjugavam os pólos cerebrais de Xande.
Xande deixou Monica, que inclusive já cumprira seu contrato e estava enamorada do garoto.
Xande deixou Monica pelo antigo amor de sua vida: Chun-Li, a heroína de Street Fighter, companheira de horas intermináveis de exposição à tela de LCD.
Pois se sempre voltamos para o seio, para o que representa nosso aconchego, era natural que o garoto voltasse aos braços de Chung-Li, aquela sua namorada eletrônica de tantas noites mal dormidas, de tantas fases e novas versões do jogo.
E para quem sugerir que Chun-Li não poderia ser sua namorada, devido à sua constituição de bits impalpáveis, Xande responde com o silêncio.
Ou melhor, responde com um apertar de botões enfurecido, a controlar os golpes de Chun-Li em cada luta, submetendo-a à sua sandice de derrotar o mundo, eis a verdadeira fonte de seu prazer.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O apanhador de suor

Mau, como era chamado pelos amigos, era um fã incondicional do rock.
Quer dizer, da música pop ao vivo em geral, pois não negava fogo em qualquer evento musical da cidade.
Podia ser arena, estádio, passarela do samba, estacionamento improvisado, onde quer que um palco pudesse ser montado, lá estava Mau na primeira fila, vibrando mais que qualquer membro de fã clube.
Engana-se quem pensa que Mau conhecia todas as bandas e músicas.
Nada.
O normal era vê-lo improvisar uma "lá-lá-lá-lá" como trilha sonora fora de compasso para sua coreografia carente de ritmo.
Mas pensa que Mau se importava?
Tsc,tsc, o homem estava quase sempre em seu mundinho muito particular para se importar com qualquer que fosse a opinião alheia.
E fazia bem, porque eram frequentes as galhofas de quem cercava Mau e quase sempre o tinha como um bêbado ou louco desvairado fugido do juqueri.
Mas isso não acontecia quando Mau era visto assistindo ao show da coxia do palco.
Aí até pensavam que Mau fazia parte do staff e portanto gozava de status junto ao público, especialmente as groupies que se juntavam na frente do palco.
Uma vez até acabou acordando num quarto do mesmo hotel da banda, tendo ao lado uma ruiva maravilhosa que o havia confundido com o baterista.
Ou coisa parecida porque o baterista tinha o biotipo oposto de Mau.
Falando nisso, com sua cabeça careca lustrosa e não mais que 1,50 m de altura, Mau poderia ser confundido com o mascote de qualquer banda de gosto bizarro.
A verdade era que Mau escondia uma identidade secreta no meio do show bizz.
O cabra era um empresário do ramo textil muito bem sucedido.
Alguns dos seus principais clientes eram empresas promotoras de shows, cujos pedidos excêntricos de toalhas para suas afetadas estrelas contratadas representavam um gordo adicional em seu faturamento.
Quinhentas toalhas brancas ali, mais oitocentas aqui, quase sempre devolvidas e colocadas de novo à venda, eram não só garantia de faturamento gordo como oportunidade de exposição de marca.
Assim seguia Mau, que de show em show e de toalha em toalha, tinha aprendido como ninguém a conciliar trabalho com diversão.
Curtindo a vida às custas do suor dos outros.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Ode aos anônimos

Nos 8 meses finais da carreira de Juca Bala, Alvinho acompanhou cada passo de seu craque favorito do Tonense Futebol Clube.
Cada passe, cada lançamento, cada carrinho, cada bola perdida.
E se alguém imaginar que isso foi tarefa de qualquer torcedor fanático, está quadradamente enganado.
Era preciso ser torcedor doente em estado terminal para acompanhar Juca.
Porque ultimamente o veterano não passava de quarta, quinta opção do técnico para comandar o ataque do Tonense.
De modo que para assistir ao craque, Alvinho tinha que acordar cedo para pegar o treino do time.
Porque para os jogos oficiais, ele já não era relacionado havia meses.
Juca sempre foi jogador mediano, daqueles contratados para compor o elenco.
Foi assim nos dezesseis outros times que defendeu.
Mas para Alvinho isso não tinha a menor importância.
O garoto não se conformava com a aposentadoria do craque, que fora solenemente ignorada por diretoria, imprensa e torcedores.
Alvinho soubera pelo roupeiro que a saída de Juca Bala tinha até data marcada.
E tinha seu plano para não vê-la passar em branco.
Por email, Alvinho convocara centenas de jogadores que um dia tiveram a honra de dividir a mesma camisa, ainda que no banco de reservas, com Juca Bala.
De mais de 280 emails, disparados, somente 11 tinham confirmado presença para o jogo-despedida, que ocorreria num campo de várzea da cidade.
Não importa, Alvinho daria um jeito de compor o outro time.
Bastou convocar a galera das organizadas, que apesar dos apupos que costumavam dirigir a Juca Bala, sentiam-se até aliviados por esse adeus.
Na data marcada, estavam todos presentes.
O time de ex-colegas do craque e o dos torcedores.
Só faltava aparecer mesmo Juca Bala.
Que de última hora, para alegria de Alvinho, não compareceu.
Por problema de contusão e suspensão, Juca Bala fora convocado para um jogo decisivo do campeonato.
Para o banco, claro.
Mas qual não foi a alegria de Alvinho quando viu seu craque entrar em campo para defender o Tonense no derradeiro jogo de sua vida.
E ainda marcar o gol que livraria o time da Quarta Divisão.
Uma despedida digna do craque perna-de-pau que alimentava os sonhos do garoto Alvinho.

sábado, 17 de setembro de 2011

Como tem que ser

Guedes era um nordestino de físico atarracado, zelador de prédio em São Paulo, tipo pacato e crente a Deus, cuja sorte sempre entregou aos desmandos do Senhor.
Padilha, um filho de cearenses nascido na capital, um motoboy que pilota destemido pelas ramificações das vias paulistanas, que então vivia às voltas com uma mãe doente, sua última parente viva.
Certo dia Guedes, que pregava um estilo de vida frugal, foi abençoado - ou seria amaldiçoado - pelo destino, que lhe presenteou com um bilhete premiado de loteria.
Não que Guedes aspirasse a qualquer tipo de vida confortável, pelo contrário, a mínima manifestação de luxúria lhe era temeroso por sua formação religiosa.
Mas fazia sim sua fézinha de vez em quando, como para provar que não nascera mesmo para as leviandades mundanas.
Padilha, ao contrário, sempre aspirou largar sua dura rotina de ziguezagueante andarilho, a ganhar o pão suado entre uma e outra entrega de despachante. Mas recentemente viu sua necessidade de fazer fortuna ser substituída por uma causa nobre, pagar o transplante clandestino de rim da mãe, que vinha definhando a cada hemodiálise.
Pois o causo se deu exatamente naquele dia em que Guedes,ao ser agraciado com alguns milhares de reais e já se sentindo desconfiado de destino tão insólito, acabou convencido pelo pessoal do condomínio a buscar o pecaminoso prêmio.
Guedes montou em sua bicicleta e, rezando aves-marias sem cessar, se dirigiu ao seu calvário mercantilista, fazendo planos de doar seu dinheiro para manter abertas as portas do paraíso.
Chegando à lotérica, pediu total discrição ao extasiado gerente - este poderia enfim fazer publicidade de pé quente de seu ponto - para receber o prêmio em dinheiro, de preferência em notas miúdas, já em tamanho adequado para a caridade.
O gerente fez a vontade de Guedes, enchendo sua mochila puída de notas descontadas na agência bancária ao lado. A missão do zelador agora era chegar são e salvo ao prédio, evitando os olhares gulosos dos curiosos que se amontoaram na frente da lotérica.
No caminho para casa, o coração de Guedes batia de tal forma a lhe ensurdecer os ouvidos para os ruídos da rua. A compassada bateria interior tomou conta da avenida, ditando o ritmo das pedaladas daquele fim de tarde afortunado.
Foi quando o incidente ocorreu. Guedes, ao virar bruscamente uma esquina, acabou se chocando em uma moto que se afastava da guia de ré, Padilha a bordo.
A bicicleta se estatelou junto com seu piloto, jogando a mochila pelos ares, agarrada por Padilha.
Ao encarar o motoboy, que lhe pareceu tão mal apessoado, Guedes teve a confirmação de que o dinheiro já lhe trazia maus presságios. E nem se deu ao trabalho de reclamar a posse da mochila, subindo de novo em sua bicicleta e sumindo ladeira abaixo na velocidade de seu coração em disparada.
Padilha,estupefato, ficou a acenar para o ciclista e quase deu a partida na moto para lhe fazer a devolução.
Mas ao examinar seu conteúdo e descobrir a fortuna ali contida, seus olhos começaram a verter lágrimas de alegria, pois a soma batia com a montante necessário ao tratamento da mãe.
Imaginou se tratar de um anjo salvador enviado pelas preces da família, pois ele há tempos que não creditava à fé nenhuma possibilidade de salvação.
Mas foi de bom grado que aceitou a ajuda da providência divina para a consequente recuperação da mãe, o que enfim lhe fez reconvertido à fé espiritual.
Agora, todo domingo Padilha presta agradecimentos àquele anjo enviado por Deus. Uma vez, ainda que por breves instantes, pensou até ter enxergado de novo o anjo na igreja, mas logo atribuiu a alucinação a uma dose sobressalente de cachaça matinal.
Mas de fato, naquela manhã Guedes havia passado pela paróquia que não costumava frequentar, apenas para agradecer por ter se livrado do pesado fardo de dar destino a dez mil reais em notas miúdas.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Amor drive thru

O amor de Pedro e Aline poderia ser descrito como um caso fugaz.
Isso se ele ainda não durasse até os dias de hoje.
A maneira como ele começou e continua é que pode ser chamada de fugaz.
Foi mais ou menos assim.
Aline trabalhava como atendente de cabine de um drive thru de lanchonete.
Naquela cabine que entrega os lanches e põe o vendedor em contato direto com o cliente ao volante.
Pedro passava para pegar um lanche e ir para casa, num daqueles finais de noite onde, lembrando-se de sua geladeira vazia, tratou de garantir o estômago forrado antes das curtas horas de sono que tinha pela frente.
Não era habitual frequentar aquele drive thru, pois este ficava perto da sede de um dos seus clientes e não da sua empresa ou de sua casa.
Mas bastou receber seu lanche das mãos daquela loira gracinha para fazer das suas visitas ao cliente uma rotina quase diária.
A ponto de seu cliente nunca ter se sentido tão bem atendido.
Lanche vai, lanche vem e não tardou para o casal ficar caidinho um pelo outro.
Mas o máximo que conseguiam naquele curto contato era roubar um selinho molhado, sob os protestos buzinados dos estressados motoristas de trás na fila.
O que acabou forçando um encontro entre os dois, marcados num dia de folga de Aline.
Pedro a pegou pontualmente em casa e o casal cumpriu com o itinerário programado de cinema, restaurante, casa de Aline e malho no sofá.
Mas no final algo não saiu como o esperado.
Toda a rica programação da noite não chegava perto em excitação aos poucos minutos que cliente e atendente flertavam separados pela janela da cabine e do carro de Pedro.
Mais algumas tentativas de sair juntos só terminaram por naufragar de vez o romance incipiente.
De modo que Pedro e Aline pararam de se ver.
Mesmo quando Pedro embicava o carro nom drive thru, Aline o evitava, mandando o Soneca atender na cabine.
De tal forma que Pedro também desistiu de procurá-la.
Até que um dia, dois anos depois, Pedro, em viagem de visita a um cliente do interior, acabou por reencontrar Aline.
Desta vez numa cabine de pedágio.
A paixão voltou a se acender.
Mas desta vez eles não quiseram se arriscar.
O relacionamento guardaria aquela distância segura entre uma janela de cabine e a janela do motorista.
E assim tem sido até hoje, entre uma buzinada do carro de trás no pedágio e a imcompreensão do cliente do interior, visitado semanalmente por um Pedro apaixonado.