Quando o idoso de cabeça branca proferiu a fatídica pergunta, ele hesitou.
Por um instante sentiu um frio nascer na espinha e se espalhar por todos os ossos do corpo.
Afinal, aquela mulher ao lado ainda era uma estranha.
Alguém com quem tinha dividido um mojito num bar e, um instante depois, acordado ao seu lado.
Sabia que os efeitos etílicos eram perversos para avaliações de parceiros de noite e aquela loira dormente ao seu lado não seria exceção.
Mas bastou uma virada de lado e um murmúrio sonâmbulo para ele mudar de idéia.
Jean retribuiu quele sorriso involuntário de canto de boca, como um código entre verdadeiros pares.
Aquela não era uma completa estranha.
Mas que ninguém se precipite achando que Jean, em seu pragmatismo de macho do interior, julgaria ser caso de almas gêmeas.
Seria capaz de esbofetear quem sequer insinuasse uma viadagem dessas.
Mas Ana não lhe era estranha.
Mesmo aquele rosto lavado, de pálpebras descerradas tal qual persianas de madeira, não era menos familiar que o de sua mãe ou irmã.
Ana causava um desconforto confortável em Jean, que ao mesmo tempo intrigava e acalmava.
Foi esse sentimento que o fez tomar uma decisão que à maioria poderia parecer precipitada.
Por isso a sua momentânea hesitação.
Quer dizer, hesitação para os outros, porque para Jean foi como aquele filme que passa na cabeça na iminência da morte.
E de alguma forma aquilo era a morte de um estilo de vida, do qual nunca tivera a mínima reclamação.
O filme passou tão rápido que poderia provocar um curto-circuito em seus neurônios.
Teve frames da infância, da adolescência de galã, da imaturidade de sua fase corporativa e finalmente, sua afirmação como artista plástico consagrado.
Passagens do primeiro beijo, sua primeira namorada, com suas duas ex-mulheres e o nascimento do três filhos.
E finalmente, Ana.
Foi aí que Jean percebeu algo estranho no quadro a quadro de sua vida.
Mais atento às cenas, ele percebeu aparições de Ana no segundo plano em quase todas as passagens importantes de sua vida.
No seu primeiro beijo, ela era a bilheteira do cinema.
Na compra de seu primeiro carro, vendedora da concessionária.
Em sua formatura, organizadora da festa.
Em seu primeiro casamento, a câmera do video-lembrança.
No nascimento do primogênito, a enfermeira.
Em sua primeira vernissage, uma curiosa.
Aquele onipresença retrospectiva encheu Jean de confiança, fazendo-o despertar de seu estado alfa provocado por um formigamento que ia dos joelhos ao calcanhares.
E prontamente ele respondeu "SIMMMM!!!" ao padre, com uma energia e veemência que arrancou gargalhadas da platéia.
Jean enfim encontrara a mulher de sua vida.
Para alívio dela, que se cansara de perseguí-lo por quase 30 anos.
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