domingo, 6 de fevereiro de 2011

O super-herói das letras

Ele não se enquadrava em nenhuma categoria de super-herói.
Definitivamente não.
Ou você chamaria de herói alguém que atende a pessoas em dificuldade usando poemas como remédios?
Pois era assim que Carlos, que estava longe de ser um Drummond de Andrade, agia.
Em momentos de total desesperança, Carlos surgia com alguma pérola de Keats, E.E.Cummings, Adélia Prado, Pablo Neruda, o que fosse conveniente para confortar a alma precisada de socorro.
Ali não importava tanto o autor do poema, desde que de seu conteúdo, na voz talentosa de Carlos, surtisse um efeito de apaziguamento interior imediato.
E Carlos era bom nisso.
Quantas vezes sua aparição repentina não consolou indivíduos em total desconforto emocional.
Casos de morte, doença terminal, fins de relacionamento, ruína financeira, várias delas tiveram em Carlos uma tábua de salvação, aquela bóia que levou o indivíduo psicologicamente moribundo de volta à margem.
Fisicamente, Carlos não era nem arremedo de super-herói.
Magrinho em pele e osso, ninguém poderia supor que ele fosse capaz de tirar o próximo do limbo.
Isso até ouvir Carlos entoar um poema.
Mesmo os desprovidos de qualquer base cultural se rendiam imediatamente à doçura das palavras que aos poucos invadia os ouvidos dos presentes, levando-os a outro patamar metafísico, acalentador, revigorante.
Carlos era sim, do alto de seus 1,58 de altura, um gigante, um anjo da guarda daqueles que não viam mais graça no correr dos dias.
Conta-se que até religiosos de fé inabalável já receberam a visita de Carlos em momentos de vacilo de sua crença.
Porque a arte às vezes consegue ser antídoto mais eficaz que a própria fé cega das bandeiras religiosas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário