terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O homem que contava os dias

Um dia o homem recebeu a visita de um anjo, que lhe contou de canto o que nenhum outro ser humano jamais soube ou saberia: o dia de sua morte.
Ele, que até então acreditava em livre arbítrio e em sua "missão pessoal" como diria Paulo Coelho, caiu em profunda depressão ao saber de sua breve e prematura morte, que lhe dava a expectativa de vida de apenas mais 3 anos.
Fora um duro golpe para o homem, que enfim conseguira superar o trauma de uma infância paupérrima e uma carreira cambaleante para enfim alcançar uma vida confortável e a admiração de seus pares como advogado criminalista.
Logo sua mulher e filhos notaram seu abatimento repentino e puseram em dúvida sua sanidade, fazendo-o passar por uma bateria de exames com médicos e psiquiatras, suspeitando de uma possível depressão.
Mas logo após um curto período sorumbático, subitamento o homem inverteu seu quadro psicológico, tornando-se alguém ainda mais solar do que costumava ser em sua fase de sucesso.
Seria uma grande noticia para sua família, se o homem tivesse retomado sua vida, mas não foi o que aconteceu.
Pelo contrário, o homem abandonou carreira, amigos e recentes hábitos burgueses pelo desapego total, passando a doar suas posses aos necessitados, e a cultivar amizades com pedintes de rua.
Esse comportamento não nublou sua mente a ponto de esquecer de seus dias contados, mas ao menos consolou-o por se sentir enfim livre das cobranças de sucesso que o acompanharam em boa parte de sua vida.
Agora o homem só pensava em aproveitar cada segundo a seu novo estilo, em convívio com descamisados e outros tipos dos chamados à margem da sociedade.
Obviamente sua família tentou interná-lo, mas quando isso acontecia o homem se refugiava em buracos providenciados pelos seus novos amigos de rua.
Numa dessas investidas de uma equipe de resgaste de um manicômio, o homem milagrosamente foi salvo por um pedinte que o ocultou em um bueiro.
Ali o homem reconheceu no pedinte o mesmo anjo que anunciara sua morte, e se lembrou que isso aconteceria em poucos dias.
Foi quando o anjo lhe comunicou que sua condenação era equivocada, pois sua ficha havia sido trocada pelo bagunçada burocracia das hordas celestes.
Uma sensação de júbilo tomou conta do homem, que na mesma hora se ajoelhou em agradecimento, como se o erro da burocracia dos céus na verdade tivesse sido uma benção.
Assim, nos dias que se seguiram, o homem viveu momentos de intenso regozijo com seu destino.
Mas ao contrário do que se poderia esperar, não retomou sua antiga vida na direção de seu escritório de advogacia nem tampouco seus hábitos prazerosos de novo rico que era.
Continuou apartado de seus familiares e amigos da bonança, preferindo a companhia de suas recentes amizades de rua.
Pois mais do que nunca ele sabia valorizar cada dia de sua limitada vida e não desejava gastar nem mesmo um segundo com o que não lhe dizia mais respeito.

Nenhum comentário:

Postar um comentário