quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O menino e os baobás

A primeira vez em que o menino se deparou e subiu numa figueira foi uma revelação.
Acompanhando as formigas a escalar aquele tronco imenso, como um formigueiro humano transitando numa metrópole vertical à la Avatar, o garoto percebeu que um mundo inteiro poderia caber numa árvore.
E passou a colecionar árvores gigantes na memória, como baobás e sequóias que habitam tanto o reino da fantasia quanto o real, mas que ficam melhor plantadas no primeiro.
Muito antes de qualquer sugestão de terapeuta, o menino aprendeu o valor revigorante de abraçar árvores em pleno Parque do Ibirapuera, sem medo do ridículo, afinal, essas "viagens" são mais do que permitidas aos inocentes menores de 10 anos.
O menino nunca entendeu campanhas de preservação do tipo "plante uma árvore", porque jamais passou por sua cabeça a necessidade de replantar algo que nunca deveria ter saído de lá.
Também nunca participou de ongs ambientais, nunca votou no PV e até hoje não sabe do que se trata o Protocolo de Kyoto.
Em sua cabeça, árvores eram mundos inesgotáveis tanto na Amazônia quanto na pracinha em frente à sua casa.
Mais tarde, já adolescente e caído de paixão pelo primeiro amor, o menino descobriu a moda antiga de registrar amores eternos no tronco de uma árvore.
E teve mais uma razão para amá-las ainda mais, as árvores.
E quando veio a moda dos virais de internet, ao assistir o video "as arvores somos noizes", o menino não achou a menor graça naquele mensagem óbvia - claro que as árvores somos nóizes!
Mais tarde, quando o descaso fez da floresta tropical um imenso deserto, e as árvores das cidades já não passavam de esqueletos renitentes carcomidos pela infestação de cupins, o menino já homem feito percebeu que lhe haviam arrancado a árvore de sua infância.
Por baixo da máscara de oxigênio, o ex-menino não conseguia esconder seus olhos marejados ao se deparar cercado por um vazio infinito de concreto.
E desejou ser não mais uma árvore, e sim um morcego, porque agora o mundo estava de cabeça para baixo e tudo que ele queria era enxergar o antigo de novo.

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