segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O endoscopeuta

Luiz Caramba era um dos enfermeiros que velava pacientes sedados numa clínica de endoscopia. Sua função era acompanhá-los até o momento em que despertavam e eram liberados para voltar para casa. Poderia ser um trabalho tedioso, não tivesse Luiz uma mania geralmente associada a loucos, a de falar sozinho. Pois essa mania acabaria lhe rendendo a descoberta de um talento inato: o de conversar abertamente com pacientes sedados, como numa sessão de terapia. Pacientes que nunca tinham visto Luiz mais gordo, acabavam tratando-no como um confidente íntimo, um melhor amigo instantâneo e espontâneo. As macas em que jaziam serviam como divãs, e Luiz não se rogava em se intrometer na vida alheia, receitando soluções para os mais diversos problemas pessoais. Luiz, que até então era um resignado servidor público, agora se comprazia com sua nova utilidade. E ele sabia que era útil, pois alguns pacientes voltavam para a clínica, e de quebra faziam mais uma sessão de endoscoterapia com Luiz. Sim, não só ele tinha uma nova profissão como inaugurava uma nova área, a endoscoterapia. E tudo caminharia muito bem, se não fosse a intromissão de uma de suas sessões pelo seu colega de clínica, nomeado Glauco. Glauco, a princípio atônito com aquele ritual de "falar com os semi-mortos", aos poucos percebeu utilidades inimaginadas no fenômeno. Ele tramava descobrir segredos de cofre, senhas de banco, tudo que pudesse usar para enriquecimento ilícito. Primeiro filmou uma das sessões de Luiz e o com o video, ameaçou entregá-lo à direção sob a acusação de invasão de privacidade. Logo fez de Luiz cúmplice de sua tramóia, com a qual Glauco em pouco tempo enriqueceu. Era-lhe muito fácil furtar os pacientes, pois sabia de detalhes como senhas de alarme, nomes de cachorro, horários do dia onde residências ficavam vazias. A roubalheira continuou de vento em popa, até que Luiz teve sua chance de abandonar o esquema. Misturou sedativo à cervejinha de Glauco e fê-lo deitar na maca e se confessar como aos outros pacientes. Com o video gravado de sua confissão, acabou denunciando Glauco e a ele também. Mas conseguiu sua absolvição pela iniciativa de desmontar o sistema corrupto. Luiz acabou expulso da clínica, mas foi também de livre vontade sua saída. Agora, cursa Psicologia na PUC e faz pós-graduação em Ciências Esotéricas. Sabe-se lá de onde vem seu talento, se do mero exercício da escuta ou de suas afinidades com o além.

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